Causos e confrontos: Linha 9 esmeralda

Linha 9 Esmeralda

Logo cedo a estação está repleta de transeuntes. É gente de todo tipo. Umas bem vestidas, umas com perfume forte de mais, umas falam alto, outras cochilam, muitas estão hipnotizadas pelo celular. É um novo tempo.
Margeando o Rio Pinheiros o trem linha 9 Esmeralda, liga o Grajaú a Osasco. As vezes corre tudo bem, as vezes não. É importante ouvir o SP TV cedinho com as informações do transito, metro e da CPTM. Só não vale confiar quando dizem que a situação se regularizou.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

A população está tão acostumada ao desconforto que passar a viagem sem lugar para respirar é normal. Quem pode vai de carro. Sustentabilidade não passou por aqui. Perduram os mesmos conceito de sempre. Até dá para dar umas risadas dos recortes de conversas.

– Tomara que minha patroa não tenha decidido cozinhar. Ela não sabe fazer nada, além de bagunça. Suja todas as panelas da casa só para fazer um macarrão.
– E lá não tem máquina de lavar-louça?
– Tem. Mas ela não sabe usar! Imagina que eu estou pegando as manias dela?! Agora eu tenho um monte de Tupperware. E fico guardando a comida nela.
– Ah! Mas eu também faço isso! Incrível como a gente pega as manias?
– Está chegando na estação Morumbi, agora vou dar uma caminhada até a casa dela. Se eu der sorte, ela vai passear hoje. Então vou poder trabalhar em paz.

A condição da mulher também é discutível no trem. Aquele homem encosta, encosta, encosta. Será que é falta de espaço? Será que ele está se aproveitando da situação? E cara feia nem sempre adianta. Reclamar também não resolve.

Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Quem anda de trem já viu de tudo. São contrastes sem fim. Enquanto, um rapaz está sentado analisando as fotos drag queen que tirou naquela tarde. Um pastor, com um terno porpurinado, tenta convencer um outro homem que Coca-Cola escrito ao contrario é diabo, que o celular android é coisa do demônio e que em um futuro próximo os humanos vão ter chips implantados no corpo e serão condenados ao inferno por isso. Por fim:

– Cuidado. Jesus está voltando.

Graças a Deus!

A Estação Pinheiros é provavelmente a mais movimentada de todas. De manhã é um alívio passar por ela. A tarde é um suplicio. Trem cheio, trem vazio. Trem com problema que vai de vagar. Mas pera. Com sorte na estação Jurubatuba sai um trem vazio. Faz frio, faz calor. Se possível libere as entradas e saídas do trem.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Entra um deficiente visual com um labrador. Um assento é liberado. Vários olhares comprometidos são trocados. O cão é fofo, mas não pode fazer carinho nele. O senhor saca o celular e fica escutando algo ao longo do trajeto. Cachorro bom, cachorro esperto, aproveita o passeio para tirar um cochilo com a cabeça apoiada no pé de alguém. E ele lá é bobo e dormir com a cara no chão do trem sujo?!

– Você olho para aquele cara. Por isso, não estava perto de mim.
– Eu juro que não. Tinha muita gente na estação, me atrapalhei.
– Você está tendo um caso!
– Não estou!
– Deixa eu ver seu celular!

O namorado (ou seria marido?!) segura a moça o mais próximo possível. Não pode imaginar que ela se separe dele nem que seja por milímetros. Bem-vindo a era do controle online. No minuto seguinte está fuxicando o celular em busca de provas. Afinal, se ele está com ciúmes, ela fez algo errado. Ou não?!

– O QUE?! Ela já vai ter outro filho?! E pobre lá pode ter esse monte de filho?! Ela deveria ser feito uma ligadura. – Diz a moça, bastante brava ao celular – Veja meu exemplo, sou uma mulher de respeito. Vou me casar, mas não vou mudar meu sobrenome. O meu nome é Lafaiete. É francês. É chique. O dele é Silva. Deixa eu com o meu e ele com o dele.

No trem tem muita gente e gente de todo o tipo. Tem gente que trabalha no trem. Vende fone de ouvido, kit kat, bombom garoto, só mercadoria de qualidade. Também tem gente sem casa, tem gente sem comida. Ou será que é mentira?! Lembre-se que ajudar ambulantes é prática ilegal. Ajuda-se um, o próximo o outra pessoa ajuda.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Linha 9 Esmeraldo

Deus te abençoe e boa viagem!

 
sarah adulta eu

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Rascunho

Poetando

De repente, a imensidão da memória da tarefa esvai sua coragem.

Na abstração do contato que nunca ocorreu e das métricas não escritas.

Fato ou opinião? Para se matar sempre há tempo.

Deus, parece uma ideia na qual pode-se repousar.

Não! Uma ideia na qual pode-se dissolver!

Como um delicioso acaso, daqueles que é preciso se apegar…

A tensão, tesão, do tempo gestado, ou seria criado?

O tempo detido, agora pronto a iniciar o fluxo.

Essas letras escritas parecem-se com um enigma.

As palavras, dispostas linha após linha, balizam o caminho que leva a vitória.

A frase finalizada invade com súbita euforia

Não é loucura comum, loucura existencial, é a catarse.

O texto espalha sua fúria, o rancor não extravasado.

A síntese é essencial para impor respeito.

Entre a tensão e o ato cai a sombra do mistério,

Mas sombras são ubíquas, ocultam-se em qualquer lugar, em qualquer coisa.

Precipitam-se no redemoinho cósmico, onde jamais serão escritas.

A diáfana presença imóvel sobre o infinito, escuro oceano.

A sabedoria não torna ninguém alegre.

O amor precisa do não lugar.

Talvez esteja nas reticências.

Certamente! Tem muita coisa nessas entrelinhas!

Virtude, pecado, acerto, erro,

A história como exorcismo do errante ectoplasma.

“- Redige não faz perguntas! Nada de comentários colaterais! ”

 

 

 
sarah adulta eu

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Posso te fazer uma pergunta?

Posso começar diferente? Posso escrever um texto só com perguntas?

O que a rede social significa? Conecta as pessoas? Desconecta as pessoas da vida real? O que aconteceu com a privacidade? Ou melhor, a privacidade existe? A privacidade persiste?

O que um like significa para você? O que significa compartilhar selfies? Você passa horas em programas de edição de imagem? O que você sente ao tirar mil fotos para escolher uma? O que significa compartilhar o que se está fazendo 24/7?

O que você espera quando posta? Sentir-se amado? Sentir-se importante? Instigar o questionamento?
Porque registrar todos os seus momentos online? Qual é a compensação? Você critica o modo como as pessoas usam a rede social? A rede social de deixa ansioso?

Você vigia seus amigos? Sua família? Seus amores? Te incomoda quando alguém “deveria” curtir algo no seu mural não curte? Te incomoda mandar uma “indireta” no mural e a pessoa não perceber? Ou pior, não se importa?

O que tem de tão libertador em mandar “Bom dia” nos grupos de WhatsApp? O que te torna tão seguro que ao propagar ideias? Por que você acha que você está certo? O que acontece quando você recebe uma critica? Você sabe apreciar uma critica? Você entra na defensiva? Você pede desculpas? Você se permite mudar?

Você tem problemas nos seus relacionamentos por causa da rede social? Você se sente menos amado quando alguém demora para te responder? E quando a mensagem fica azul e nada? E quando a pessoa está online e não te respondeu? E se a pessoa saiu e não postou?

E se a bateria acaba? Você confere quantas pessoas olharam? Você consegue conversar em casa sem o celular na mão? Você consegue dedicar 5 minutos para ler um livro, ver um filme? Você consegue se sentir amado mesmo quando ninguém te mandou mensagem? Você consegue estar com seus amigos sem o celular? Você se diverte sem postar fotos?

Somos detestáveis? Somos admiráveis? Gênios? O que te move? O que me move? Para onde vamos?


sarah adulta eu

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Como dar o melhor de sí?

Prulúdio
Havia um homem que, desejando transcender seu sofrimento, foi a um templo budista para encontrar um Mestre que o ajudasse. Dirigiu-se a ele e perguntou:
– Mestre, se eu meditar 4 horas por dia, quanto tempo vou levar para me iluminar?
O mestre olhou para ele e respondeu:
– Se meditar 4 horas por dia, provavelmente chegará a iluminação em 10 anos.
Imaginando que poderia fazer melhor, o homem perguntou:
– Mestre, se eu meditar 8 horas por dia, quanto tempo levarei para transcender?
– Se meditar 8 horas por dia, talvez possa atingir a iluminação em 20 anos.- respondeu o Mestre.
– Mas por que levarei mais tempo se meditar mais? – indagou o homem.
– Você não está aqui para sacrificar sua alegria ou sua vida. Você está aqui para viver, para ser feliz, para amar. Se puder dar o melhor de si em duas horas de meditação… Mas se gasta oito horas, só vai se cansar, perder o objetivo principal e não aproveitará sua vida. Dê o melhor de si e talvez aprenda que não importa quanto tempo você medita, pode viver, amar e ser feliz.
sarah adulta eu
O texto de hoje foi apenas um prelúdio do próximo post onde vou falar sobre a filosofia Tolteca. Não é só a comida mexicana que é boa. Aguardem…

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Do que você precisa?

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Nos últimos dois anos eu tenho tido uma sequência de oportunidades incríveis de viajar. Lugares novos e velhos, experiências boas e ruins, toda uma coleção de aprendizados de vida. Eu não acredito que eles sejam relevantes para todo mundo, já que cada um de nós tem um caminho diferente de vivências, cada aprendizado tem um peso, uma significância única, dependendo de quem os expressa ou quem os viveu.

Algumas reflexões porém, podem ser compartilhadas. Esse título é uma das (infinitas) perguntas da vida para as quais não tenho uma resposta objetiva, precisa, ou muito menos definitiva. É só uma daquelas que me colocam no meu melhor modo filósofa de sofá.

Primeiro talvez valha um aviso de isenção: eu sei que tudo que a gente precisa para estar vivo é oxigênio, nutrientes e água. Como não somos seres meramente biológicos, mas também sociais, ainda podemos acrescentar uma boa dose de convívio saudável com outras pessoas. Certo? Tá, mas se a gente pode viver muito além dessa existência fisiológica e psicologicamente saudáveis, para uma vida plena de alegrias e completude, por quê não? Daí que a partir desse pensamento acho que toda a humanidade foi “evoluindo” para um mundo de industrialização. Também não acho que seja ruim, mas o que me leva a refletir é onde está a linha que divide o conforto que a gente gosta e o consumismo desenfreado que pode fazer mais mal do que bem.

Viver de uma mala por um mês foi algo supreendentemente modificador para mim. E a partir daí, viver uma semana com uma mochila de roupas também. Até viver forçadamente essas experiências, eu não conseguia entender como era possível ter um guarda-roupa cápsula. Como era possível se sentir bem tendo não só um número definido de peças para usar, mas também ter essas peças escolhidas a priori. Eu mal sei dos meus compromissos da semana, como eu vou saber que tipo de roupa vou precisar daqui a três meses? Até que eu entendi que a palavra-chave aí é precisar.

Por exemplo, eu levei duas calças (não jeans) porque eram as que cabiam em mim (ainda mais com as camadas por baixo que o frio faziam imprescindíveis). Ao voltar, eu não queria mais vê-las na minha frente e ao mesmo tempo olhar para as outras várias calças que tinham ficado pra trás me incomodava porque eu sei que não preciso delas (e nem uso mesmo). Como eu falei lá em cima, não tenho nenhuma grande revolução para apresentar ao mundo. Não me desfiz de todos os meus bens materiais, e nem sei se esse é o meu objetivo, mas esse tipo de reflexão já tem sido bastante impactante na forma como eu olho para meus próprios comportamentos e para o mundo.

Pelo menos, eu não precisei esperar a merda chegar para frear e repensar minhas compras. De quantas roupas eu preciso? De quantos sapatos, bolsas, brincos? Escrevo isso enquanto estou espremida em uma mesa cheia de coisas que eu não sei nem descrever, papéis, cabos, canetas, então essa reflexão claramente não deve se manter presa ao guarda-roupas.

Momento desabafo passado, eu sei que a internet tem inspirações e mais inspirações pra mim. Refletir sobre isso não precisa ser algo restrito a como eu me visto ou outras banalidades, mas também de como eu mudo o mundo de acordo com o que eu escolho consumir.

Tem alguém aí pra refletir comigo?

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A nova onda do Imperador: Cusco em 5 dias

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Bom, eu acabei de voltar de Cusco, no Peru, e resolvi contar um pouco sobre como foi a viagem. Eu mesma planejei quase tudo e fiquei bem feliz com o resultado! 🙂
Então, vou começar pelo tempo de viagem: meu roteiro é de apenas 5 dias, mas se for possível aconselho ficar mais tempo. Eu tinha lido em vários blogs que 5 dias era suficiente para conhecer a cidade, mas não estava contando que em dois desses cinco dias eu passaria viajando e não poderia aproveitar tanto a cidade. Acredito que o tempo ideal seria de 7 dias, assim poderia visitar os lugares básicos do roteiro turístico que ficaram faltando e ter um tempinho a mais de explorar a cidade.
Começamos então pegando o avião de 5h40 aqui no Rio e acho que a maioria dos vôos pra lá saem nesse horário já que os outros brasileiros com quem conversei durante a viagem disseram ter viajado nesse mesmo horário. Apesar de ter que chegar no aeroporto mais ou menos 3h da manhã, pra fazer o check-in e ir pra sala de embarque até que não foi tão ruim. Eu com meus incríveis 1,57 cm de altura e anos de treinamento estudando de manhã, consigo me acomodar bem e dormir em qualquer lugar, então nem senti tanto a viagem (na verdade, até prefiro viajar de noite porque passa mais rápido). Nosso vôo tinha conexão em Lima, então chegamos no hotel em Cusco entre 13h e 14h da tarde.
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Logo que chegamos já tivemos nosso primeiro susto: o câmbio era bem diferente do que tinha pesquisado, mas precisávamos de dinheiro e resolvemos trocar ali mesmo no aeroporto, que costuma ser mais caro. Pagamos 1 real para 85 centímos de soles x_x! E aqui entra a segunda dica: não troque muito dinheiro! Apesar do câmbio ser bem abaixo do que esperávamos ficamos com dinheiro sobrando no final, que acabei gastando em coisas inúteis. No final, eu gastei menos de 200 soles em cinco dias, para as coisas comuns do dia-a-dia, tipo comida. Como a gente não queria viajar só com real, levamos dólares também porque lá eles também aceitam e pagamos o pacote dos passeios assim. Não é difícil achar casas de câmbio lá, na verdade, até barraquinhas de artesanato faziam isso, mas trocavam principalmente dólar e euro.
Como ficaríamos pouco tempo e deixamos pra comprar todos os tickets e passeios lá tínhamos que resolver isso logo no primeiro dia, que é um dia que você não deve fazer muito esforço por causa da altitude. (Eu não senti nada do soroche, mas levei as recomendações a sério e procurei não me esforçar muito no primeiro dia.) Enfim, tudo isso pra falar que compramos o pacote do nosso taxista. Sim. Do taxista do aeroporto.
A gente pegou o táxi do lado de fora, porque o primeiro cara do lado de dentro que nos abordou falou que custaria 50 soles até o hotel e tínhamos acabado de levar uma facada com a taxa de câmbio, então eu só ri da cara dele e fui embora. Do lado de fora a gente encontrou esse cara e conseguimos pechinchar o táxi pra 20 soles e nisso fomos conversando. Ele perguntou se já tínhamos um roteiro e começou a explicar um pouco sobre isso. Chegou até a parar em frente ao “escritório” dele, ou seja, uma rua esquisita que tava com tudo fechado (depois descobrimos que era feriado), mas pedimos pra ele nos deixar primeiro no hotel para pensarmos e fazer as contas pra ver se o valor realmente valeria a pena. No final a gente nem procurou muito, estávamos sem paciência e queríamos resolver logo isso. Só entramos em uma agencia na praça das armas e que nos atendeu muito mal, então fechamos com ele mesmo. Foi arriscado, sim, mas deu certo.

Chega de enrolação: vamos ao city tour! Foi nosso segundo dia na cidade e primeiro passeio. Um cara foi lá no hotel de manhã deixar nossas entradas e avisar que alguém nos buscaria 13h15 da tarde. Aproveitamos a manhã pra andar em lugares perto do hotel, mas como estávamos meio perdidas ainda e com medo de sentir algum mal de altitude, não rendemos muito nessa caminhada. Enfim, a pessoa foi lá buscar a gente e nos levou para o primeiro lugar – Qorikancha. Percebemos que o boleto turístico da minha prima estava no nome da mãe dela (por algum motivo eles confundem) e acabamos ficando presas do lado de fora tentando resolver isso. Pegamos o grupo já começado com um cara, señor Jesus, que falava espanhol muito rápido e um inglês com sotaque muito forte, ou seja, a gente não entendia nada que ele falava. Esse foi um lugar que fiquei triste de ter passado tão depressa! O cara só ficava falando e falando e não nos dava tempo para ver o lugar… Talvez se o tour começasse mais cedo daria pra ver melhor. Mas por causa disso eu quase me perdi do grupo umas 5 vezes nos 30 minutos que ficamos lá. DICA: Tentem visitar Qorikancha fora do city tour! É fácil chegar, o ingresso é separado do boleto turístico e tem guias na porta do local se você desejar.
Depois a gente pegou o ônibus e fomos para Saqsayhuaman. Não lembro qual era a distância, mas como aquele guia não parava de falar parecia infinito. Chegando lá já tínhamos pegado a malicia de abandonar o grupo, já que não entendíamos nada que ele falava e estávamos frustradas com a visitação super corrida no templo anterior. A gente deu umas voltas por lá, tiramos umas fotos, mas como era o primeiro lugar do tipo e eu não conhecia nada da sua história, pra mim era só um monte de pedra empilhada. Mas, por favor, façam diferente porque depois de visitar os outros locais, percebi que esse era um dos mais bonitos na minha opinião. As construções incas são muito incríveis, tentem valorizar cada lugar que vocês visitarem por que é realmente especial. (Mas eu só fui entender isso no segundo dia, com uma guia mais legal e que era possível compreender o que ela falava).
Depois fomos a Q’enqo e Tambomachay, mas como eu não estava prestando muita atenção não lembro de quase nada. Nem vendo as fotos eu lembro qual era qual. Estou me guiando pelo roteiro escrito que a gente ganhou do guia e os furinhos que eles fazem no boleto turístico quando você visita o lugar.
Por último paramos em Puca Pucara e lá visitamos uma loja e fábrica de produtos com lã de alpaca e llama. Essa loja até que foi legal, uma pessoa de lá falou um pouquinho sobre como diferenciamos os produtos legítimos dos falsos e nos ensinou sobre as diferentes qualidades das lãs de acordo com a raça das alpacas.
Voltando para a cidade, o ônibus nos deixou perto da praça das armas e de lá voltamos pro Hotel. Eu saí para comer sozinha e acabei num bar de esportes muito legalzinho chamado La Fabrica Sports Bar. Lá eu comi um macarrão delicioso lá que custou 19 soles e era enorme. No último dia almoçamos lá também, mas dessa vez dividi com a minha prima e serviu muito bem nós duas. Eu queria muito sair e fazer algo animado e divertido, mas não tinha conhecido ninguém ainda e lá nesse bar só tinha gente mais velha então não durei muito (apesar de que estava doida pra jogar dardos!), só comi e fui embora. Outra coisa que foi ruim em ter ficado pouco tempo: não deu pra curtir muito a vida noturna da cidade.
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No fim desse intenso primeiro dia, passei 40 minutos no telefone da recepção tentando conseguir um médico pra minha prima e acabou que ela estava com intoxicação alimentar. Então ela ficou no hotel no dia seguinte e eu fui passear sozinha.
Terceiro dia: Vale Sagrado. Todos os lugares que eu li diziam que nas cidades desse lugar tinham várias feirinhas de artesanato, principalmente no domingo, mas eu não achei nada demais quanto a isso. E olha que eu fui no domingo. A guia nesse dia era muito melhor, falava de forma clara e devagar e tinha um sotaque de inglês bem melhor que nosso primeiro guia. Então posso dizer: vale muito a pena ter uma visita guiada de qualidade, você consegue entender melhor o que são aqueles lugares que você está visitando e aproveitar muito mais do que só ir lá e tirar foto. O roteiro desse lugar inclui dois lugares principais: Pisaq e Ollantaytambo. Não vou me prolongar falando de cada um deles, mas dessa vez tivemos mais tempo para explora-los por nossa conta e os dois lugares são lindíssimos! Nesse dia também compramos o pacote com almoço incluso e vale muito a pena! É um buffet liberado e com vários pratos típicos peruanos. O restaurante era na cidade de Urubamba, mas a gente só ficou dentro do restaurante mesmo. Por fim, a última cidade é Chinchero, mas, de novo, chegamos lá e já estava escuro, então só conhecemos uma lojinha de lá. Nesse lugar foi a demonstração mais legal de todas! Eles mostraram como era o processo de confecção das peças têxteis desde a lã crua, até uma manta pronta! É realmente bem legal ver como é tudo feito com ingredientes naturais e o trabalhão que dá… depois disso fiquei até com pena de pechinchar os preços.

De noite consegui achar finalmente um lugar agitado e com pessoas da minha idade. Um argentino que conheci no tour me levou no hostel dele que tinham uns eventos, tipo umas festas de noite. O lugar de chama Loki Hostel e é bem legal! Lá eu comi uma pizza e joguei Beer Pong com uma galera meio aleatória. A parte mais legal é que cada um era de um canto do mundo ali e todos estavam na mesma vibe animada e receptiva. Infelizmente fui embora meio cedo, já que no dia seguinte iria acordar 4h30 da manhã para ir a Machu Picchu.
Quarto dia: o tão esperado Machu Picchu. Esse merece uma dica logo de cara: NÃO DEIXEM SEU GUIA COMPRAR O TREM DA VOLTA TÃO TARDE!!!! Um carro nos buscou no hotel as 5h em ponto, e de carro mesmo fomos até a estação de Ollantaytambo pegar o trem. O cara só deixou a gente lá com as passagens e o ticket de entrada e mandou a gente procurar uma bandeira vermelha escrito o nome do grupo. Obviamente a gente não achou o grupo. Catei um wifi e liguei pro nosso agente turístico (a gente só comprou o pacote com ele, não o encontramos nenhum outro dia) e ele falou que o grupo já tava no trem. Entramos meio desesperados no trem e não encontramos a tal da bandeira de novo. A viagem foi boa e rápida, o trajeto é muito bonito e o trem é bem confortável, vale bastante a pena!
Chegamos em Aguas Calientes e eu resolvi perguntar pra primeira pessoa que eu vi com uma bandeira pra saber se ela tinha visto nosso grupo. Acabou que o grupo que procurávamos era o dela, mas a bandeira era azul. Como podem ver já começou tudo meio confuso e assim continua. Como a gente ainda não tinha as passagens de ônibus pra subir de Aguas Calientes para Machu Picchu ela nos deixou com outra mulher pra comprar as passagens. E que por sua vez nos deixou no ônibus com as instruções de encontrar uma terceira pessoa que seria nosso guia em Machu Picchu. Chegamos lá em cima umas 9h40 e encontramos o señor Fernando apenas 10h15. Foi tudo bem confuso e corrido, mas finalmente entramos e 6 pessoas do grupo de 8 eram brasileiros. E todos cariocas <3 O tour durou umas 3h mais ou menos e segui a dica de um amigo de não tirar muitas fotos para aproveitar bastante aquele momento porque é um lugar muito especial (obrigada, Gabriel!). Por fim, ficamos livres para andar sozinhas pelo parque mas como minha prima não tava se sentindo bem no calor (inclusive o chocolate da minha mochila derreteu, sujou tudo, e ainda ficamos com belíssimas marcas de camisa por causa do sol) voltamos para Aguas Calientes por volta de 14h30. Nosso trem só sairia 20h20. Sério. Não façam isso. Tentamos de todo jeito trocar a passagem pra mais cedo, até mostramos o atestado médico, mas não adiantou… Nós também não éramos os únicos com o trem tarde tentando conseguir vaga mais cedo.
Enfim, não deu. Rodamos aquela cidadezinha inteira umas 3 vezes. Não tem nada demais, e é tudo mais caro. Mas foi divertido. Queria ter voltado mais cedo e aproveitado mais da cidade de Cusco, mas foi legal lá também. Chegamos no nosso hotel mais de 00h.

Ultimo dia (e, nossa, como eu falo!!!): Mercado São Pedro. Usamos o resto do tempo que tínhamos sobrando para ir nos museus que tínhamos entrada por causa do boleto turístico e gastar os soles que nos tinham sobrado nesse estranhíssimo lugar chamado mercado São Pedro. O lugar é uma mistura só! A gente quis ir lá porque no primeiro dia perguntamos a uma guardinha de transito onde poderíamos comer barato e ela falou desse mercado. Era muito esquisito, não sei nem como descrever… Bem cena de filme mesmo com uns bichos mortos pendurados pra vender, pé de galinha (!!!!!!), várias moscas, etc. Mas tinham também várias barraquinhas vendendo artesanato local e era bem mais barato, então valeu a pena.
Vou deixar aqui os lugares que eu comi e lembro o nome:
-Café Perla (Esq. San Andrés com Kuychipunku, nº492): o lugar é uma graça e tem um preço bom. Lá comi uma Truta a la Plancha deliciosa.
– La Fabrica Sports Bar (Rua Santa Catalina, nº360): é um bar temático que serve tanto pra comer como pra encher a cara. Tem umas mesas com dardo e em outro andar tem também sinuca e pebolim. Fui super bem atendida e, o preço da comida era bom e o prato que eu comi dava pra dividir tranquilamente. (as cervejas e drinks eram um pouco mais caros, mas nada fora do comum, coisa de 20 soles em média)
– Loki Hostel (Cuesta de Sta. Ana, nº 601): lá você precisa de uma pulseirinha pra entrar e você usa ela pra pagar também. Não sei como funciona pra pessoas de fora já que eu entrei meio escondido e peguei as coisas com a pulseira desse meu amigo, mas lá eu dividi uma pizza que custou 12 soles e ainda sobrou uns dois pedaços. A cerveja também tinha um preço bom.
Dicas no geral:
– Atenção ao horário do trem da volta em Machu Picchu. O parque fecha as 17h, e o ultimo ônibus desce 17h30, mas dá pra conhecer tudo com calma e terminar bem antes. Acredito que o trem das 18h seja o ideal, assim você vê tudo com o guia e sem ele depois e sem ficar muito tempo atoa na cidade.
– Tente passar a semana lá, assim você terá mais tempo de explorar as ruazinhas da cidade que por si só já são belíssimas. Cinco dias foi muito corrido e não conseguimos ver tudo.
– Comprando todos os passeios num pacote só porque saí mais barato assim, mas se puder gastar um pouco mais, acho que vale a pena ir comprando separadamente e escolher guias melhores em uma língua que você entenda! Dessa forma você escolhe os lugares que vai passar mais tempo e aproveitar tudo que o lugar e sua história podem proporcionar.
– Se você quer calma, e valoriza sua cama e banheiro fique numa pousada. Mas caso esteja interessado em conhecer gente nova, fazer amigos e curtir a noite cusqueña aconselho um hostel, lá tem várias opções para todos os gostos.
– Ficamos hospedados na pousada La Casona de Rimacpampa. Lá só serve café da manhã, que nem era tão bom, mas eles nos atenderam muito bem, principalmente no dia que precisei chamar um médico. O ruim foi que no dia que chegamos mais tarde não tinha mais água quente no chuveiro.
– Inca Kola tem gosto de chiclete de tutti frutti.
A nova onda do Imperador: Cusco em 5 dias

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Sequestros Neurais

Sequestros Neurais

O cérebro considera impossível ignorar expressões emocionais, principalmente as de irritação. Examine uma multidão, e alguém com a expressão irritada irá se destacar. Esse é o cérebro neandertal em busca de eventuais ameaças. Isso ocorre porque somos programados para prestar atenção reflexiva a “estímulos supernormais”, que seja por segurança, nutrição ou sexo.

No mundo atual, anúncios publicitários que agem sobre essas mesmas inclinações pré-programadas também nos cutucam no sistema ascendente, conquistando atenção reflexiva. Basta vincular sexo ou prestigio a um produto e é possível ativar esses mesmos circuitos para nos influenciar a comprar por motivos que sequer percebemos.

Nossas propensões particulares nos tornam ainda mais vulneráveis alcoólatras ficam fascinados por anúncios de vodca; depravados, por pessoas sensuais num comercial turístico.

Quando somos dominados por fortes emoções, elas guiam nosso foco, fixando nossa atenção no que é mais perturbador e fazendo com que nos esqueçamos do resto.

Sequestros emocionais são disparados pela amígdala – esqueça o seu pescoço, estamos falando do cérebro -, o radar de emaças do cérebro que está constantemente rastreando o entorno em busca de perigo.

Sequestros Neurais

Quando esses circuitos encontram uma ameaça (ou o que poderia ser uma ameaça – pois frequentemente se enganam), uma ampla via de circuitos neuronais subindo para as áreas pré-frontais envia um bombardeio de sinais que faz com que a parte mais baixa do cérebro guie a parte mais alta: nossa atenção se estreita, colada ao que está nos perturbando; nossa memória se reembaralha, tornando mais fácil recordar qualquer coisa que seja relevante à ameaça em questão. E nosso corpo entra em marcha acelerada enquanto uma enxurrada de hormônios do estresse prepara nossos membros para lutar ou correr. Nós nos fixamos no que é perturbador e esquecemos o resto.

Quanto mais forte a emoção, maior a fixação. Os sequestros emocionais são as supercola da atenção. Por quanto tempo? Isso depende do poder da região pré-frontal esquerda para acalmar a amigdala excitada. A resiliência emocional se resume à rapidez com que conseguimos nos recuperar de problemas nesses casos.

O envolvimento ativo da atenção significa uma atividade descendente, um antidoto para o risco de se atravessar o dia com um automatismo de zumbi. Podemos reagir a comerciais, ficar alertas ao que está acontecendo ao nosso redor, questionar rotinas automáticas ou melhora-las. Essa atenção focada e frequentemente orientada a resultados descuidados é o foco ativo.

Embora as emoções possam desviar nossa atenção, com esforço ativo também conseguimos administrar as emoções descentes. Assim, as regiões pré-frontais assumem o controle da amigdala, diminuída sua potencia. Um rosto irritado, ou mesmo aquele bebê fofo, pode não conseguir capturar nossas atenção quando os circuitos do controle descendente assumem as escolhas do cérebro sobre o que levar em consideração e o que ignorar.

sarah adulta eu

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Utópias, Distopias e Eutopias

utópias, distopias e eutopias

utópias, distopias e eutopias

É fácil condenar. Exigente é amar, servir e dispor-se em favor da vida. O ser humano e a infinita teima interrogante do saber. De onde viemos, por que viemos, quem somos, o que vem depois? Os porquês da ciência são rasos. No final, são reduzidos mapas, registros e explicações cada vez mais precisas e minuciosas da superfície causal do que acontece.

O físico Steven Weinberg afirma que “Quanto mais o universo parece compreensível, mais ele parece destituído de proposito”. Poderia alguém tecer uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão limitadas, frágeis e rusticas são as nossas mais sofisticadas e inspiradas tentativas de responder aos “por quês” da existência e tapar com mitos e explicações de toda ordem os buracos da nossa infinita ignorância.

utópias, distopias e eutopias

Inadvertidamente o sobrenatural está sendo banido da natureza. E paradoxalmente, a ciência percebe o mistério do mundo cada dia mais insondável. Sendo assim, perceveram duas incógnitas, o antes de nascer e o depois de morrer, duas eternidades que circunscrevem o espasmo da vida.

Não obstante, se a imortalidade fosse concedida aos seres humanos, acabariam todos enfadados. “Nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade” dizia São Bernardo.

Então se a fome de sentido é inerente a condição humana, as formas e estratégias de aplaca-las são infinitas. Shakespeare dizia “Os nossos pensamentos são nossos, mas os seus fins não nos pertencem”, ou seja, nenhum autor consegue controlar o uso das suas ideias.
Navega-se no terreno das probabilidades e não das certezas. Muitas coisas são resultado da ação humana, mas não da intenção humana. Todo ato, por mais simples, extrapola a pretensão de quem o pratica.

O mundo moderno elegeu três ídolos para usurpar o trono dos antigos deuses: o avanço da ciência; o progresso da tecnologia; e o crescimento da renda e riqueza e da riqueza. O indivíduo enche a boca para dizer palavras nobres e ocas.

utópias, distopias e eutopias

Brinda-se o fim  do ócio criativo que é algo muito distinto do lazer cronometrado. Acompanhado do crescimento da espiral do descontrole humano. Homens e mulheres afogados no sono sintético, presos entre a excitação efêmera e o tédio tardio. Talvez, algum dia a farmacopeia fornecerá também profundidade.

utópias, distopias e eutopias

Fernando Pessoa foi tradutor de cartas comerciais, T.S.Eliot bancário, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade servidores públicos. Esses criadores, dentre tantos, embora premidos a trabalhar para pagar as contas no final do mês, encontraram trabalho fora do emprego – uma razão de viver. Então, o que define trabalho?

Verso e reverso. O ter, e não o fazer, define a sociedade atual. O aumento da renda faz crescer a sensação da falta. O consumo é visto como: o território sagrado para o exercício da liberdade individual. A humanidade é serva do ganho, livre e soberana no gasto. No final de tudo, o ser humano no fundo continua sendo um animal selvagem e terrível.

utópias, distopias e eutopias

Dizem que tudo em excesso faz mal. Então, é logico dizer que pode-se pecar pelo excesso de moderação. Assim sendo, o ceticismo não é uma sabedoria, está mais para uma renúncia; o niilismo desemboca no suicídio e em formas degradadas de credulidade, como os fanatismos políticos. A arquitetura, a música e a reza partilham dessa insanidade: as artes afundam nos truques e convites ao devaneio.

utópias, distopias e eutopias

Na sociedade perfeita, seja como que for, não haveria o que mudar. Sendo assim, as utopias acabam-se tornando eutopia, ou seja, lugar feliz. Não obstante, a eutopia de alguns pode ser a distopia de outros.

A inadaptação a um meio mórbido, por incapacidade ou recusa, afinal, é um sinal de sanidade. Mas superar deficiências e atacar pendencias, por mais clamorosas, não é o mesmo que afirmar valores. Toda cultura incorpora um ideal de felicidade. A lógica sozinha não move: a criação do novo exige sonho.

Reconciliado consigo próprio. É garimpando o cascalho das nossas apostas, conquistas e fracassos que chegaremos a lapidação dos nossos saberes e potencialidades. O segredo da utopia reside na arte de desentranhar a luz das trevas. O futuro se redefine sem cessar – ele responde à força e à ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite espessa o raiar da manhã.

utópias, distopias e eutopias

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Em primeira pessoa:

Veio de presente para mim o livro “Trópicos utópicos” de Eduardo Giannetti. Se pudesse definir o livro em uma palavra seria: questionamento. O livro representa um conjunto de ensaios, todos embasados em filósofos, sociólogos, teólogos, economistas, em fim, um conhecimento nada modesto usado apenas para incitar o leitor a arte da indagação.

Além de tudo, é o mais puro abuso da língua portuguesa (ou seria da língua brasileira?!), ele ousa com palavras e expressões de cunho elevado que termina por garantir o que Schopenhauer chamaria de “uso sutil dos vocábulos”, ou seja, acaba por conferir ao autor uma certa “autoridade credencial”. Contudo, o autor (aparentemente) não tem intensão de se impor, pois se contra argumenta em cada novo texto.

A leitura é sempre uma experiência estritamente individual. Porém, vive-se a era twitter, facebook que aparentemente proferiu a todos o direito divino a “verborragia” interminável e inescrupulosa, por vezes, cansativa. O autor, Eduardo Giannetti, acredita que “a natureza e as sociedades humanas são portadoras de energias regeneradoras das quais mal desconfiamos”, eu espero que ele esteja certo.

Quando ele propõe “a ciência ilumina, mas não sacia – e pior: mina e desacredita todas as fontes possíveis de repleção” o leitor pode revoltar-se e crer que o autor é um religioso fanático. Superada essa barreira, o leitor pode espantar-se com: “existe mais mistério no ser de uma simples flor ou de um aleatório grão de areia do que em todas as religiões do mundo“.

utópias, distopias e eutopias

Carol Bensimon, escritora brasileira, escreveu: “Não preciso ler obras que propaguem meus valores feministas porque entendo que isso pode-se tornar extremamente perigoso: romances, sob hipótese alguma devem ser escritos como cartilhas que pregam essa ou aquela ideologia“. Muita gente diz detestar a obra de Nietzsche porque ele é machista, ou se nega a ler Marx por medo extremo de se tornar comunista. E eu me questiono, onde reside o senso crítico? Ou se é obrigados a mudar de opinião quando nos expomos a outros fatos?

É delicada a forma como o autor entende e defende a liberdade de crença “Ao imaginar que a crença em Deus é algo que possa ser ligado ou desligado da mente como se opera um interruptor elétrico; (…) o contrario seria como supor que alguém dilacerado por um amor fracassado pudesse reencontrar a paz mediante uma hipótese explanatória ou um raciocínio lógico.

E enquanto submergia no livro me questionava: Serei um dia capaz de organizar minhas ideias de uma forma tão simples e rica? Me deparo então com a sentença “A lógica sozinha não move: a criação do novo exige sonho“, não obstante ele completa com “É garimpando o cascalho das nossas apostas, conquistas e fracassos que chegaremos à lapidação dos nossos saberes e potencialidades.

Sendo assim, escrevi essa releitura do livro, espero que não tenha ficado tão aquém do livro, e também espero que suscite em quem ler esse texto a curiosidade em conhecer o livro.

utópias, distopias e eutopias

Por fim, obrigada Diego!

sarah adulta eu

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Donzela de ferro

donzela de ferro

Há uma notável semelhança entre o ato de amor e as ministrações de um torturador.
O som de um preludio de Debussy disfarçava o suave equilíbrio da letargia do fracassado simulacro da vida.
Como os animais selvagens, essa dama vivia sem futuro.
O clima esfriou, seu coração também.

Tornou-se magnificamente excêntrica na adversidade.
Tão longe da infância, vivia uma infâmia e o potencial para corrupção aumentava.
As pontadas de dor da perda seguiam escondidas por trás da feição aquiliana.
Empobreceu por causa do amor, não sabia se pelo excesso ou pela falta.

Habitava um Lugar belo e triste onde o céu derretia no mar,
A atmosfera sempre imersa na salinidade amniótica do oceano,
O local anfíbio transgredia a materialidade tanto da terra quanto das ondas.
Os pilares eram feitos de espuma e as paredes brilhavam como se suassem de medo.

Solidão feérica!

A consciência lhe pregava peças e puía sua autoconfiança
Parecia que todos os objetos inanimados ganharam vida, somente para zombar dela.
Fazendo par com as harpias delinquentes de Debussy que a atormentavam.

Sentia a premonição de algum horror,
Recolhia-se a uma imobilidade de cera
Não havia medo, mas hesitação, como se prendesse a respiração espiritual.

E a estrela vespertina caminhava na borda da noite
Enquanto o cálice transbordava o absinto que a condenou.

Todos os dias a nobre dama renascia em formas desconhecidas.
Ansiava por aquele momento e, ao mesmo tempo, o repugnava.
Portava uma fita vermelha símbolo da memória de sua ferida.
Ainda acreditava que teria sido feliz ali, pois era senhora das chaves daquela prisão.
Porém , sabia que seria executava com exuberância escabrosa.

Agora ausência de indícios da vida real não a impressionavam.
Tudo em silencio, tudo imóvel, a exceção do murmúrio das ondas.
Da noite viemos, á noite regressaremos.
A couraça de metal da donzela de ferro emitiu um fantasmagórico ruído metálico.
Um passo em falso e ela tropeçou para sempre no abismo da escuridão.
FotorCreated
sarah adulta eu

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Você se lembra?

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Você se lembra? Era outono quando a gente se conheceu. Aquela época do ano em que conseguimos sair no sol sem achar que vamos nos desafazer no asfalto. Não é uma época particularmente pitoresca por aqui, você já deve ter percebido isso não? Ainda assim, os dias são agradáveis e as frentes frias começam a nos lembrar de que conseguimos sim ter um pequeno inverno. Quando a gente se conheceu fazia um dia lindo lá fora, você se lembra? O sol brilhava gentilmente, mas a brisa do mar não o deixava castigar nossas peles. Não estávamos sozinhos, era realmente um belo dia, tanto pra você quanto pra mim. A noite estava começando a chegar quando eu te vi, e como se uns poucos raios de sol ainda conseguissem escapar do horizonte você se destacou no meio de tanta gente. Você deve ter reparado meu olhar atordoado, porque andou na minha direção e sorriu. Não consigo me lembrar se sorri de volta. De repente, foi como se o tempo andasse ao contrário. Naqueles poucos segundos em que encarei o seu sorriso, o sol brilhou dentro de mim, queimou a minha pele e me fez acreditar que eu nunca veria um inverno novamente.

IMG_0770Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016. 

Você se lembra? Enquanto eu estava ali, nesse estado, você se apresentou e quis saber o meu nome. A gente não deve ter trocado muitas palavras, não acredito que eu fosse capaz de encontrar muitas cada vez que seus olhos encontravam os meus. Não estávamos sozinhos e a vida tem dessas coisas, naquela noite nós sorrimos e andamos em direções opostas.

Como todo ano, aquele inverno não foi diferente. Os dias continuavam claros, mas o nosso corpo precisava de mais proteção. Umas tempestades passaram e, cada um de nós do seu lado da cidade, as observamos e nos afligimos achando que os dias estavam escuros de mais pro nosso gosto.  Mas, você se lembra de como foi rápido? Enquanto ainda buscávamos abrigo da escuridão que nunca chegaria, enquanto as noites pareciam mais compridas do que realmente eram, enquanto levantar da cama era a tarefa mais difícil que poderíamos pensar em executar, a primavera ocupou o ar.

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Tiradentes, Minas Gerais. Agosto, 2014.

Não por acaso a primavera é minha estação preferida. Foi quando a vida cruzou nossos caminhos novamente, e inspirados pelas flores nós conversamos e andamos e discutimos o universo, futuro e presente. Foi na primavera que você segurou a minha mão, você se lembra? Foi ali mesmo, à beira do infinito do mar que eu pedi, a quem quisesse me ouvir, que aquele momento não acabasse. Nunca tivemos uma primavera tão longa. Todas as cores brilhavam mais, as frutas eram mais saborosas e acordar todos os dias não era nada mal. Você se lembra se foram dias, meses ou anos? Eu tento, mas não consigo. Tudo que guardei em mim foram os incontáveis sorrisos, as cores, os gostos.

O verão chegou e, como é comum por aqui, a única diferença foi o calor. A gente tem mania de reclamar disso, ne? Mas aquele deve ter sido o melhor verão das nossas vidas. Tudo se aqueceu, nossos sorrisos, nossos olhares, nossos toques. Não tínhamos nada do que reclamar. Tudo é mais intenso no verão. É aquela estação do ano que nos inspira a acreditar que nada pode dar errado, que as noites não podem durar muito – e que na verdade elas nunca são tão escuras assim.

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Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016.

Um dia, porém, o outono chegou. E, novamente, com seus ventos fortes, ameaçou um inverno terrível. A principio eu não acreditei que isso fosse possível, não depois de duas estações tão quentes, coloridas e felizes. A vida tem dessas coisas não é? Durante alguns minutos só você falou, enquanto eu apertava meu coração com força para que ele não se desfizesse ali na sua frente. Você se lembra? Com um sorriso eu disse que estava bem, você se lembra? Eu me lembro. Você sorriu, se desculpou e foi embora.

17101512_10210042962724389_2113080367_o Iguaba Grande, Rio de Janeiro. Junho, 2016.

O inverno chegou. Contra todas as expectativas, ficou frio e escuro. As noites eram intermináveis, sair na rua e encarar o mundo parecia impossível. O ar era tão pesado que dificultava a respiração, os agasalhos pesavam como se eu carregasse um enorme cachorro preto nas costas. As lágrimas continuavam escondidas, é claro, atrás de um sorriso. Os pesadelos eram constantes, inspirados pela escuridão do mundo e pela violência que começava a assolar nossas ruas.

Uma dessas noites eu sonhei com você. Eu sonhei que sentia seu corpo ao meu lado e que o sol brilhava quente sobre nós. Eu sonhei que aquilo era a realidade, e todo aquele inverno não passava de uma pequena nuvem que cruzava o céu. Sonhei que, se você havia passado pelas mesmas estações que eu, ainda poderia haver esperança. O único defeito de todos os mundos oníricos é que eles tem um fim. Disso você não vai lembrar, mas aquela noite eu acordei e estava deitada no chão. Percebi que todo aquele calor era meu sangue se esvaindo de mim. Quando tentei gritar, a única palavra de que me lembrava era o seu nome. Naquela tarde de outono, ao som melancólico da sua voz, eu apertei meu coração mais forte do que deveria. Durante o inverno, toda a escuridão vinha de dentro e eu não fui capaz de perceber. Sem um coração operante, nosso sangue se perde não é? Não tinha mais seu destino predeterminado, e talvez estivesse tão ruim aqui dentro que ele precisou sair. Enquanto eu tentava me equilibrar em meio aquela poça de sentimentos vermelhos e grudentos, não conseguia mais lembrar do seu sorriso. Quando as lágrimas vieram novamente, alagou o quarto. Naquele desespero de sobreviver, eu duvidei se em algum momento você sequer existiu. Enquanto tudo de mim se esvaziava, eu acreditei que todas as últimas estações haviam sido alucinações de uma mente solitária. Acreditei que você era somente o produto de um cérebro que lia muitos romances.

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“The Gates of Hell” (Rodin). Stanford, Estados Unidos. Janeiro, 2015.

Sem perceber, caí no sono novamente. Quando acordei, finalmente era dia. O quarto estava limpo, assim como meu corpo, que apenas se sentia ressaqueado. Por uns dias eu tentei entender aquela noite. Por uns dias eu tentei sentir alguma coisa, mas não consegui. Aquele inverno parecia cada vez mais interminável, tinha me deixado dormente e fotofóbica. Preferi me resignar à ideia de que você não era real, era um personagem da minha criatividade, e isso doeu. Doeu por mais uns dias enquanto acreditei que nunca mais eu veria o sol.

Ainda era inverno quando meu telefone tocou e eu ouvi a sua voz.

Novamente caí em um desespero sanguinolento, simplesmente por descobrir que era tudo real. Toda felicidade foi real, mas não tanto quanto a dor. Senti a força que a minha própria escuridão conseguia exercer sobre mim. Foi quando percebi que enquanto eu chorava e estremecia, o sol lá fora já estava voltando a cantar. Saí de casa e decidi que precisava sair de mim. Senti uma vontade incontrolável de me jogar em direção a um abismo desconhecido qualquer. Todos aqueles pelos quais eu caí antes pareciam doloridos olhando do chão em que aterrissei, escuros demais, duros demais. Ainda assim, todos eles haviam parecido como um poço dos desejos quando olhados lá de cima. E por alguns momentos da queda a adrenalina fazia tudo parecer mais quente, intenso, levemente insano, mas bom.

17122118_10210042961964370_487306367_oGovernador Celso Ramos, Santa Catarina. Dezembro, 2016. 

Entendi que faria tudo de novo. Entendi que naquele último outono, quando olhamos para o abismo eu me desequilibrei na beirada enquanto você teve medo e preferiu ficar no seu próprio deserto. Me debrucei sobre as duvidas, as inseguranças e toda a escuridão que me assolou durante o inverno. Será que você havia passado pelo mesmo que eu? Não pude aquietar essa duvida e durante a primavera escalei pedra a pedra o abismo de volta até te encontrar. Aquele sorriso que tanto havia me aquecido um dia ainda estava lá, apesar de todos meus questionamento quanto a sua existência.

Eu te perguntei: “Você se lembra?”

Você pegou a minha mão e, sem precisar de uma palavra, nós pulamos. O salto mais sincronizado que o abismo já presenciou em todos os seus milênios de existência. E com os sorrisos coordenados não conseguíamos olhar para baixo, ainda assim nós dois soubemos ali que aquele abismo não tinha chão. Dali, a gente só podia cair para o infinito do universo.

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