Causos e confrontos: Linha 9 esmeralda

Linha 9 Esmeralda

Logo cedo a estação está repleta de transeuntes. É gente de todo tipo. Umas bem vestidas, umas com perfume forte de mais, umas falam alto, outras cochilam, muitas estão hipnotizadas pelo celular. É um novo tempo.
Margeando o Rio Pinheiros o trem linha 9 Esmeralda, liga o Grajaú a Osasco. As vezes corre tudo bem, as vezes não. É importante ouvir o SP TV cedinho com as informações do transito, metro e da CPTM. Só não vale confiar quando dizem que a situação se regularizou.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

A população está tão acostumada ao desconforto que passar a viagem sem lugar para respirar é normal. Quem pode vai de carro. Sustentabilidade não passou por aqui. Perduram os mesmos conceito de sempre. Até dá para dar umas risadas dos recortes de conversas.

– Tomara que minha patroa não tenha decidido cozinhar. Ela não sabe fazer nada, além de bagunça. Suja todas as panelas da casa só para fazer um macarrão.
– E lá não tem máquina de lavar-louça?
– Tem. Mas ela não sabe usar! Imagina que eu estou pegando as manias dela?! Agora eu tenho um monte de Tupperware. E fico guardando a comida nela.
– Ah! Mas eu também faço isso! Incrível como a gente pega as manias?
– Está chegando na estação Morumbi, agora vou dar uma caminhada até a casa dela. Se eu der sorte, ela vai passear hoje. Então vou poder trabalhar em paz.

A condição da mulher também é discutível no trem. Aquele homem encosta, encosta, encosta. Será que é falta de espaço? Será que ele está se aproveitando da situação? E cara feia nem sempre adianta. Reclamar também não resolve.

Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Quem anda de trem já viu de tudo. São contrastes sem fim. Enquanto, um rapaz está sentado analisando as fotos drag queen que tirou naquela tarde. Um pastor, com um terno porpurinado, tenta convencer um outro homem que Coca-Cola escrito ao contrario é diabo, que o celular android é coisa do demônio e que em um futuro próximo os humanos vão ter chips implantados no corpo e serão condenados ao inferno por isso. Por fim:

– Cuidado. Jesus está voltando.

Graças a Deus!

A Estação Pinheiros é provavelmente a mais movimentada de todas. De manhã é um alívio passar por ela. A tarde é um suplicio. Trem cheio, trem vazio. Trem com problema que vai de vagar. Mas pera. Com sorte na estação Jurubatuba sai um trem vazio. Faz frio, faz calor. Se possível libere as entradas e saídas do trem.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Entra um deficiente visual com um labrador. Um assento é liberado. Vários olhares comprometidos são trocados. O cão é fofo, mas não pode fazer carinho nele. O senhor saca o celular e fica escutando algo ao longo do trajeto. Cachorro bom, cachorro esperto, aproveita o passeio para tirar um cochilo com a cabeça apoiada no pé de alguém. E ele lá é bobo e dormir com a cara no chão do trem sujo?!

– Você olho para aquele cara. Por isso, não estava perto de mim.
– Eu juro que não. Tinha muita gente na estação, me atrapalhei.
– Você está tendo um caso!
– Não estou!
– Deixa eu ver seu celular!

O namorado (ou seria marido?!) segura a moça o mais próximo possível. Não pode imaginar que ela se separe dele nem que seja por milímetros. Bem-vindo a era do controle online. No minuto seguinte está fuxicando o celular em busca de provas. Afinal, se ele está com ciúmes, ela fez algo errado. Ou não?!

– O QUE?! Ela já vai ter outro filho?! E pobre lá pode ter esse monte de filho?! Ela deveria ser feito uma ligadura. – Diz a moça, bastante brava ao celular – Veja meu exemplo, sou uma mulher de respeito. Vou me casar, mas não vou mudar meu sobrenome. O meu nome é Lafaiete. É francês. É chique. O dele é Silva. Deixa eu com o meu e ele com o dele.

No trem tem muita gente e gente de todo o tipo. Tem gente que trabalha no trem. Vende fone de ouvido, kit kat, bombom garoto, só mercadoria de qualidade. Também tem gente sem casa, tem gente sem comida. Ou será que é mentira?! Lembre-se que ajudar ambulantes é prática ilegal. Ajuda-se um, o próximo o outra pessoa ajuda.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Linha 9 Esmeraldo

Deus te abençoe e boa viagem!

 
sarah adulta eu

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Rascunho

Poetando

De repente, a imensidão da memória da tarefa esvai sua coragem.

Na abstração do contato que nunca ocorreu e das métricas não escritas.

Fato ou opinião? Para se matar sempre há tempo.

Deus, parece uma ideia na qual pode-se repousar.

Não! Uma ideia na qual pode-se dissolver!

Como um delicioso acaso, daqueles que é preciso se apegar…

A tensão, tesão, do tempo gestado, ou seria criado?

O tempo detido, agora pronto a iniciar o fluxo.

Essas letras escritas parecem-se com um enigma.

As palavras, dispostas linha após linha, balizam o caminho que leva a vitória.

A frase finalizada invade com súbita euforia

Não é loucura comum, loucura existencial, é a catarse.

O texto espalha sua fúria, o rancor não extravasado.

A síntese é essencial para impor respeito.

Entre a tensão e o ato cai a sombra do mistério,

Mas sombras são ubíquas, ocultam-se em qualquer lugar, em qualquer coisa.

Precipitam-se no redemoinho cósmico, onde jamais serão escritas.

A diáfana presença imóvel sobre o infinito, escuro oceano.

A sabedoria não torna ninguém alegre.

O amor precisa do não lugar.

Talvez esteja nas reticências.

Certamente! Tem muita coisa nessas entrelinhas!

Virtude, pecado, acerto, erro,

A história como exorcismo do errante ectoplasma.

“- Redige não faz perguntas! Nada de comentários colaterais! ”

 

 

 
sarah adulta eu

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Posso te fazer uma pergunta?

Posso começar diferente? Posso escrever um texto só com perguntas?

O que a rede social significa? Conecta as pessoas? Desconecta as pessoas da vida real? O que aconteceu com a privacidade? Ou melhor, a privacidade existe? A privacidade persiste?

O que um like significa para você? O que significa compartilhar selfies? Você passa horas em programas de edição de imagem? O que você sente ao tirar mil fotos para escolher uma? O que significa compartilhar o que se está fazendo 24/7?

O que você espera quando posta? Sentir-se amado? Sentir-se importante? Instigar o questionamento?
Porque registrar todos os seus momentos online? Qual é a compensação? Você critica o modo como as pessoas usam a rede social? A rede social de deixa ansioso?

Você vigia seus amigos? Sua família? Seus amores? Te incomoda quando alguém “deveria” curtir algo no seu mural não curte? Te incomoda mandar uma “indireta” no mural e a pessoa não perceber? Ou pior, não se importa?

O que tem de tão libertador em mandar “Bom dia” nos grupos de WhatsApp? O que te torna tão seguro que ao propagar ideias? Por que você acha que você está certo? O que acontece quando você recebe uma critica? Você sabe apreciar uma critica? Você entra na defensiva? Você pede desculpas? Você se permite mudar?

Você tem problemas nos seus relacionamentos por causa da rede social? Você se sente menos amado quando alguém demora para te responder? E quando a mensagem fica azul e nada? E quando a pessoa está online e não te respondeu? E se a pessoa saiu e não postou?

E se a bateria acaba? Você confere quantas pessoas olharam? Você consegue conversar em casa sem o celular na mão? Você consegue dedicar 5 minutos para ler um livro, ver um filme? Você consegue se sentir amado mesmo quando ninguém te mandou mensagem? Você consegue estar com seus amigos sem o celular? Você se diverte sem postar fotos?

Somos detestáveis? Somos admiráveis? Gênios? O que te move? O que me move? Para onde vamos?


sarah adulta eu

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Como dar o melhor de sí?

Prulúdio
Havia um homem que, desejando transcender seu sofrimento, foi a um templo budista para encontrar um Mestre que o ajudasse. Dirigiu-se a ele e perguntou:
– Mestre, se eu meditar 4 horas por dia, quanto tempo vou levar para me iluminar?
O mestre olhou para ele e respondeu:
– Se meditar 4 horas por dia, provavelmente chegará a iluminação em 10 anos.
Imaginando que poderia fazer melhor, o homem perguntou:
– Mestre, se eu meditar 8 horas por dia, quanto tempo levarei para transcender?
– Se meditar 8 horas por dia, talvez possa atingir a iluminação em 20 anos.- respondeu o Mestre.
– Mas por que levarei mais tempo se meditar mais? – indagou o homem.
– Você não está aqui para sacrificar sua alegria ou sua vida. Você está aqui para viver, para ser feliz, para amar. Se puder dar o melhor de si em duas horas de meditação… Mas se gasta oito horas, só vai se cansar, perder o objetivo principal e não aproveitará sua vida. Dê o melhor de si e talvez aprenda que não importa quanto tempo você medita, pode viver, amar e ser feliz.
sarah adulta eu
O texto de hoje foi apenas um prelúdio do próximo post onde vou falar sobre a filosofia Tolteca. Não é só a comida mexicana que é boa. Aguardem…

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Do que você precisa?

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Nos últimos dois anos eu tenho tido uma sequência de oportunidades incríveis de viajar. Lugares novos e velhos, experiências boas e ruins, toda uma coleção de aprendizados de vida. Eu não acredito que eles sejam relevantes para todo mundo, já que cada um de nós tem um caminho diferente de vivências, cada aprendizado tem um peso, uma significância única, dependendo de quem os expressa ou quem os viveu.

Algumas reflexões porém, podem ser compartilhadas. Esse título é uma das (infinitas) perguntas da vida para as quais não tenho uma resposta objetiva, precisa, ou muito menos definitiva. É só uma daquelas que me colocam no meu melhor modo filósofa de sofá.

Primeiro talvez valha um aviso de isenção: eu sei que tudo que a gente precisa para estar vivo é oxigênio, nutrientes e água. Como não somos seres meramente biológicos, mas também sociais, ainda podemos acrescentar uma boa dose de convívio saudável com outras pessoas. Certo? Tá, mas se a gente pode viver muito além dessa existência fisiológica e psicologicamente saudáveis, para uma vida plena de alegrias e completude, por quê não? Daí que a partir desse pensamento acho que toda a humanidade foi “evoluindo” para um mundo de industrialização. Também não acho que seja ruim, mas o que me leva a refletir é onde está a linha que divide o conforto que a gente gosta e o consumismo desenfreado que pode fazer mais mal do que bem.

Viver de uma mala por um mês foi algo supreendentemente modificador para mim. E a partir daí, viver uma semana com uma mochila de roupas também. Até viver forçadamente essas experiências, eu não conseguia entender como era possível ter um guarda-roupa cápsula. Como era possível se sentir bem tendo não só um número definido de peças para usar, mas também ter essas peças escolhidas a priori. Eu mal sei dos meus compromissos da semana, como eu vou saber que tipo de roupa vou precisar daqui a três meses? Até que eu entendi que a palavra-chave aí é precisar.

Por exemplo, eu levei duas calças (não jeans) porque eram as que cabiam em mim (ainda mais com as camadas por baixo que o frio faziam imprescindíveis). Ao voltar, eu não queria mais vê-las na minha frente e ao mesmo tempo olhar para as outras várias calças que tinham ficado pra trás me incomodava porque eu sei que não preciso delas (e nem uso mesmo). Como eu falei lá em cima, não tenho nenhuma grande revolução para apresentar ao mundo. Não me desfiz de todos os meus bens materiais, e nem sei se esse é o meu objetivo, mas esse tipo de reflexão já tem sido bastante impactante na forma como eu olho para meus próprios comportamentos e para o mundo.

Pelo menos, eu não precisei esperar a merda chegar para frear e repensar minhas compras. De quantas roupas eu preciso? De quantos sapatos, bolsas, brincos? Escrevo isso enquanto estou espremida em uma mesa cheia de coisas que eu não sei nem descrever, papéis, cabos, canetas, então essa reflexão claramente não deve se manter presa ao guarda-roupas.

Momento desabafo passado, eu sei que a internet tem inspirações e mais inspirações pra mim. Refletir sobre isso não precisa ser algo restrito a como eu me visto ou outras banalidades, mas também de como eu mudo o mundo de acordo com o que eu escolho consumir.

Tem alguém aí pra refletir comigo?

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