A vida continua mudando

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Escrever é uma atividade muito reflexiva. Quando começamos esse blog, já se foram 15 meses, nos encontrávamos em um certo momento de vida. Cada uma de nós com suas particularidades e nesse tempo as coisas deram giros completos algumas vezes, virando tudo de cabeça pra baixo e pra cima de volta. Não consegui manter o que propus a mim mesma e a você, em certos momentos o vislumbre de um momento de reflexão foi mais assustador do que parece normal.

Ultimamente mais do que antes, mas espero que aceite minhas desculpas e mais esse texto.

Já concordamos, há muito tempo, que nenhum problema ou alegria é comparável entre duas pessoas. Nesse tempo minhas alegrias foram muitas, tantas que me distraíram da jornada de auto-reflexão que estávamos seguindo lado a lado. Ao mesmo tempo, sentia aquela adrenalina de quem parou de pedalar, descendo morro abaixo, curtindo o vento no rosto com os olhos fechados para não ver o momento da queda.

A queda não veio – ainda – mas o medo não foi embora também. Cada vez que pensava em escrever, vinha também a paralização pelo medo de cair. Como se parar pra pensar sobre a vida fosse só destruir a ilusão de felicidade interminável. Ainda não estou pronta pra acreditar que isso vai ter um fim, mas bem no fundo eu sei.

Não estou sofrendo, e espero que isso amenize seus sentimentos. Por outro lado, dizem que de boas intenções o inferno está cheio. Antes que eu chegue nesse ponto, aqui estão as minhas singelas palavras e espero que as aceite e entenda.

Nossa vida estava mudando radicalmente 16 anos atrás, quando nos conhecemos. Não parou desde então – estava mudando 15 meses atrás, continua mudando agora e espero que não pare nunca. Venha o que vier, as vezes mais offline do que online, saiba que continuo aqui – pra discutir livros, estrelas, surpresas, alegrias e tristezas.

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Com direito à foto-vergonha porque sim. (:

Assinatura Clari

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Cérebro, tumores, sentimento e amigdala cortical

chupa essa laranja

Primeiro, um causo…

O jovem e bem sucedido advogado Elliot descobriu um tumor do tamanho de uma laranja atrás da testa. Felizmente, uma cirurgia foi capaz de resolver o problema. No entanto, as pessoas intimas a ele afirmaram que sua personalidade havia mudado. Ele passou a empregar seu tempo de maneira infrutífera, perdia-se em detalhes sem importância, parecia que ele não tinha mais senso de prioridade e era indiferente quando alguém chamava sua atenção. Em pouco tempo, Elliot deixou de ser um bem-sucedido advogado empresarial, para mal conseguir se manter empregado. Acabou com suas economias, sua esposa o deixou, perdeu a casa e acabou indo morar num quarto vago na casa do irmão.

Após uma série de exames, o médico neurologista Antônio Damasio percebeu que embora não houvesse nenhum problema de raciocínio lógico, na memória, na atenção ou qualquer outra capacidade cognitiva, Elliot havia se tornado praticamente indiferente, apático, as coisas que lhe aconteciam. Inclusive, era capaz de falar sobre fatos trágicos ocorridos em sua vida com total frieza.

Após uma investigação extensa, Damásio concluiu que durante a remoção do tumor,  varias ligações entre os centros inferiores do cérebro emocional (a amigdala cortical e os circuitos relacionados), e as capacidades de pensar do neocórtex foram rompidas. Ou seja, Elliot passou a pensar como um computador: Ele era capaz de executar todas as etapas, mas incapaz de atribuir pesos as diferentes possibilidades. Qualquer solução era neutra para ele.

Conclusão: a reduzidíssima consciência dos próprios sentimentos tornou falho o raciocínio de Elliot. Sem consciência de seus próprios sentimentos, ele não tinha preferencias. Chegando ao ápice de Elliot ser incapaz de marcar um horário de consulta.

Essa historia trágica parece ser uma anedota, mas não é. O neurologista Damásio publica o livro em 1994 chamado “O erro de descartes: Emoção, razão e o cérebro humano“. E atualmente é citado em diversos artigos científicos e livros.

Mas, qual é a importância disso para nós?

O ser humano vive em função da dualidade de suas mentes, ou seja, somos intuitivos e analíticos. A mente intuitiva possui forte vontade própria, e, muitas vezes, tal desejo não é racional (não confundir com irracional). E a mente analítica, gosta de estabelecer e cumprir regras, uma espécie de “camisa de força” mental que limita abusos, mas ao mesmo tempo inibe o potencial da mente intuitiva, sobre tudo em ambientes de trabalho. E cada ser humano é uma mistura dessas duas, exceto nosso amigo Elliot.

Nós, homo sapiens, ou seja, “homem sábio”, nos orgulhamos de nossa capacidade única de sermos racionais – quando, na verdade, não é exatamente isso que somos. Na verdade, as mentes analítica e intuitiva trabalham juntas, ou disputam atenção e o controle dos pensamentos, sentimentos e ações. Porém, hoje temos uma informação a mais, graças ao Dr. Damasio e a condição de Elliot, quem toma as rédeas das decisões é a mente intuitiva, ou seja, nossas decisões são sempre tomadas pelo lado emocional.

Afinal, como iriamos escolher onde morar, com quem casar, quem demitir, se devemos ou não aceitar um emprego, ou, até mesmo, em que investir?

Voltamos ao dilema: Caso ou compro uma bicicleta.

Sempre que leio esses assuntos me pego refletindo na minha vida. A minha mãe costuma me perguntar: “Sarah, você não disse que ia estudar? Então porque você está lendo um romance?”, “Sarah, você não disse que ia projetar? Então, porque você está desenhando?”.  Simplesmente, eu consigo estudar por mais tempo, se antes eu ler um capitulo de algum romance. Do mesmo jeito que eu projeto melhor quando dedico uns 3o minutos a desenhar ou pintar algo que está na minha cabeça. Porém, na cabeça da minha mãe, estou perdendo tempo produtivo.

Na verdade, foi a experiência (tentativa e erro) que me ensinou como eu estudo melhor, ou como eu crio melhor. E é assim com todos os seres humanos. Qualquer um que precise tomar decisões precisa aprender a distinguir a informação relevante daquela insignificativa, o que facilita muito o processamento paralelo dos dados. Interpretação de texto ou de contexto?

A verdade é: Fazer boas avaliações intuitivas em situações complexas e com um pouco tempo exige que consiga obter simultaneamente uma quantidade significava de informações. Os seres humanos, em geral, têm aversão a incerteza. Porém, verdade seja dita, nunca saberemos com certeza como as coisas se desenrolarão, pois enquanto os acontecimentos se desenrolam, as circunstancias mudam. Nem sempre há realmente uma única resposta, certa ou errada. E frustrações a parte, a complexa e habilidosa interação entre o sentimento (da mente intuitiva) e o pensamento (da mente analítica) é a abordagem inteligente da intuição.

Qual é o problema da intuição?

O problema da intuição é que difícil justificar para alguém os “porquês”. Pois, assim como para mim faz todo o sentido começar a estudar através da leitura de um romance, para minha mãe não faz nenhum sentido. O que quero dizer com isso? Intuição é uma experiência pessoal, que não é facilmente explicável. Porque essa área do cérebro se comunica conosco através dos sentimentos que nem sempre são traduzíveis em palavras.

Agora gostaria de propor um exercício: Benjamin Franklin, se baseia numa espécie de “álgebra moral ou preventiva” cujo o ponto forte é a mente analítica, ele escreve o trecho abaixo para seu sobrinho Joseph Priestly em 1772:

“Pegue uma folha de papel e anote na parte superior algo que o preocupa. Divida o resto do espaço em duas colunas, nas quais, posteriormente, anotará os prós e os contras. Reflita por três ou quatro dias sobre o problema e então faça uma lista completa dos pontos positivos e negativos da sua decisão. Depois, liste-os na folha reservada e releia-os. Sempre que um pró for equivalente a um contra, risque ambos. O que restar no final do balanço será a melhor resposta.”

Parece ótimo e perfeitamente racional. Porém, procure propor uma situação que lhe pareça difícil de resolver e aplique essa lógica. Agora reflita se você não fica inclinado a pensar em mais pontos positivos ou em mais pontos negativos, de antemão você sabe que está inclinado a fazer algo. O mesmo seria jogar no cara ou coroa, se sair um resultado que não lhe agrada você provavelmente repetirá o teste, ou arriscará. Quer gostemos ou não, a verdade é que os sentimentos pesam no momento de tomarmos uma decisão, a despeito de todo o esforço que fazemos para agir de maneira lógica e de todos os conselhos que recebemos para ser assim.

sarah adulta eu

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Transparências

transparências

O nome desse post define bem a fase do blog. Não é que eu não tenha escrito, eu até escrevi bastante, e também tive muitas ideias. Todas me pareceram banais. Comecei e parei. Separei fotos, vídeos, filmes e vivi experiências, mas não escrevi nada que achasse que merecia ser lido, alias, muitas das coisas que tenho publicado, nem acho tão boas assim. E isso é frustrante.

No aniversário da Clari conversamos, ela me disse que minha escrita que estava com uma tendência melancólica. Eu acho estranho pensar em mim como alguém melancólica. Mas é verdade. Tenho uma tendência a melancolia quando escrevo, pinto, desenho. Mas não é de inquietação que vive o artista? Não sei. Se é que posso me considerar artista.

Outra coisa, não gosto de escrever em primeira pessoa, apesar de ser o que geralmente ocorre. Acredito que isso aconteceu porque eu acho extremamente irritante ler como as pessoas se posicionam nas redes sociais, em primeira pessoa, com tanta convicção, sendo que na prática, a maior parte são ideias estapafúrdias, irrefletidas. Alias, parece que o facebook é o lar das “verdades” generalistas, e as pessoas que não tem a menor ideia do que estão dizendo.

Ou talvez, eu esteja ficando uma pessoa extremamente critica que quer conhecer os e as: Schopenhauer, Lampedusa, Hawking, Carter, Dewitt, Scliar, Sun Tzu, Limonov, Carrère, Gianetti, Maupassant, Gogol, Lahiri, Aleksiévitch, da vida real, quero saber se esse povo existe. Acho que eu conheço alguns candidatos a publicar coisas boas no futuro, me sinto sortuda por isso, espero que eles invistam no potencial deles.

Mas a questão que me sufoca é: Será que algum dia eu poderia produzir algo tão bom quanto essas personalidades? Esse sentimento que me é tão familiar. Foi como eu me senti durante a faculdade de arquitetura e a certeza de que eu nunca seria tão boa quanto: Os irmãos Roberto, Lina Bo Bardi, e mais um monte de gente que não vou fazer a lista agora.

Essa exigência, provavelmente, em excesso, me faz ser muito questionadora, critica e certamente prejudica minha produção, ultimamente eu me sinto a pessoa do contra. Diga-me uma certeza que eu vou te cutucar. Gostaria de entender da onde as pessoas tiram tanta convicção para afirmar tanta bobagem. Volto minha revolta para o mundo das redes sociais. Logo eu, tão critica, tão autocritica, que ultimamente não vejo o porque propagar nada.

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Então, estamos no inicio da segunda metade do meio do ano de 2017. Segundo o skoob foram 29 livros em 2017. Li o total de 7.334 páginas, uma média de 40 páginas por dia. E o que percebi com isso? Meu posicionamento na vida mudou radicalmente, porém ainda está longe de ser fixo. Abando a posição de combate e passei para retaguarda, gosto de pensar em mim como cética, com a esperança de que exista um momento preciso para me manifestar.

Eu sempre gostei de ler, mas entrar para a TAG experiências literárias fez toda a diferença na diversidade de autores e títulos que eu pude ascender. Literalmente experiências literárias, Alguns foram chatos, outros foram extremamente estimulantes, outros me causaram náuseas, outros mudaram minha vida. Lembra que eu falei de Paddy Clarke Há Há Há?

Mas aproveito o ensejo para propor um questionamento. O que você pensa quando vê:

  • Aquele casal que sempre se declara, Posta fotos e testamentos gigantescos amorosos?
  • Aquela mulher que sempre posta foto malhando?
  • Aquele cara que sempre posta fotos fazendo caridade?
  • Aquele outro que sempre posta sobre religião ou politica?

Uma coisa eu sei, o que postamos tem muito a ver com a imagem que pretendemos passar para o mundo. É incrível como eu me enfado com as redes sociais. As vezes saio e prometo não postar mais nada, quando vejo estou aqui novamente. Regredindo? Talvez, ainda não decidi se acho a rede social e as conecções excessivas um avanço ou um retrocesso. Talvez seja um pouco dos dois. Mesmo assim, eu acho irrelevante a maior parte das coisas que eu posto e a maior parte das coisas que os outros postam.

Escrevo no blog porque acredito que essa é a melhor forma de praticar. Ler, ter experiências e escrever. Quem sabe eu escreva algo que valha a pena? Desenhe algo que seja uma maravilha? Projete algo incrível? Sendo assim, me rendo a era digital e compartilho meus pensamentos com uma ou duas pessoas que me leem. E concluo, É sim, é gratificante receber alguma crítica, elogio, mesmo banal pelas redes. O like conta. Infelizmente?

“Quanto a mim, não pertencia a essa tribo, que eu fingia desdenhar e, na verdade me intimidava.”

Talvez sejamos todos crápulas.

sarah adulta eu

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