O fremir da autopercepção

Fechou os olhos
Os lábios se distenderam num sorriso
Involuntário
“As mulheres estão se matando”
Pensou

Toda a vida é um combate pela liberdade
O corpo precisa de liberdade
Para ser
Para respirar
A verdade é melhor do que mentiras

Entre ditos espirituosos
Quanto menos a viam
mais difamatórias eram as fofocas
Texturas, humores, caráter, desprezo,
Desespero

Ela não se importava
Quem é causa e vive nos outros para causar?
Quem sabe os instrumentos e quais as pessoas?
Ela, eu, você, Clarice Lispector, Chimamanda, Emily Dickinson, Emma Watson, Emma Goldman, Simone de Beauvoir, Isabel Allende, Virginia Woolf, Jane Austen, Lya Luft, Raquel de Queiroz, Agata Chistie, Jumpha Lahiri, Frida Kahlo, Lina Bo Bardi, Anita Malfatti, Djanira Motta e Silva, Tarsila do Amaral, Zaha Hadid,
Eu, você, Elas, eles,
Todos nós

Feminismo

sarah adulta eu

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Toulouse-Lautrec: Em busca de novos parões

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“Nada existe realmente nada a que se possa dar o nome ARTE. Existem somente ARTISTAS.” Gombrich

No final do século XIX, os artistas ansiavam por uma “Nova Arte”, mais tarde conhecida como Art Nouveau. Essa arte deveria se basear na sensibilidade do desenho e nas capacidades de cada material. Os jovens artistas tinham esperança de que a influencia do Japão pudesse ajudar a Europa a superar o sentimento de inconformismo.

No primeiro momento, parecia que a busca arte em a imitar a impressão visual estava resolvida. Porém, após o impressionismo e a dissolução de contornos firmes na luz bruxelante e a descoberta de sombras coloridas pelos impressionistas, surgiu um novo problema: como poderiam representar sem acarretar uma perda de ordem e clareza? As telas impressionistas eram brilhantes, porém confusas.

Claude Monet. Water Lilies. c. 1920. Oil on canvas, triptych, each section 6'6" x 14" (200 x 425 cm). The Museum of Modern Art, New York.

Monet. Water Lilies (1920). óleo sobre tela, (2 x 4,25 m). Moma, Nova York.

Desde que os artistas passaram a mostrar-se constrangidos no tocante “estilo”, as convenções deixavam-nos desconfiados e a mera habilidade impacientes. Ansiavam por uma arte que não consistisse em truques que podem ser aprendidos, por um estilo que não fosse mero estilo, mas algo forte e poderoso como a paixão humana. Então, três expoentes precisão ser relembrados:

    • Cezanne (1839-1906), considerado pai da arte moderna, detestava a confusão que o momento artístico se encontrava. Entretanto, não pretendia voltar as convenções tradicionais do desenho e do sombreado para criar a ilusão de solidez, também não pretendia voltar as paisagens compostas para obter composições harmoniosas. Sua arte tendia para uso de cores fortes e intensas, tanto quanto de padrões lúcidos.

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    • Vicent van Gogh (1853-1890) impressionado pela arte de Millet, influenciado pelos impressionistas e Seurat. Pintou apenas por apenas três anos, sem conhecer a fama. Ele almejava que suas telas tivessem o efeito forte e direto das gravuras japonesas.

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    • Gougin (1848-1903), soberbo e ambicioso, chegou a se juntar a Van Gogh para produzirem juntos, porém a parceria acabou quando van Gogh num acesso de loucura ataca Gougin. Ele admirava os japoneses, mas a arte deles era sofisticada em comparação com a intensidade e simplicidade por que ansiava. Seu estilo torna-se selvagem após sua estadia no Taiti. Hoje (talvez) não nos impacte tanto, em primeiro momento,  pois estamos habituados a arte contemporânea.

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Cezanne, Van Gogh e Gauguin deram um passo determinante para a arte abandonar a finalidade de representar fielmente a natureza. Extremamente solitários, trabalharam com pouca esperança de serem compreendidos. Cezanne nos levou ao cubismo (França); Van Gogh nos levou ao expressionismo (Alemanha) e Gauguin culminou a diversas formas de primitivismo.

O MASP apresenta “Toulouse-Lautrec: em vermelho”

Toulouse-Lautrec MASP

O MASP está com um mostra incrível do pintor Henri Toulouse-Lautrec (1864-1901). Acredito que ele seja de conhecimento comum no Brasil por causa do filme Moulin Rouge.  Influenciado por Degas (o pintor das bailarinas). Traçou o rumo do Art Nouveau em suas pinturas e gravuras que exibiam um padrão agradável muito antes de se poder ver o que representava.

Além, revolucionar o design gráfico dos cartazes, é considerado o mestre do contorno, podia retratar cenas de grupos de pessoas onde cada pessoa é individual (consta que na época era possível identificar apenas pela silhueta). Frequentemente, aplicava a tinta em uma estreita e longilínea pincelada, deixando a base (papel, tela) ou o contorno aparecer, mas não pintava sombras. Sua pintura é gráfica por natureza. E apesar da litografia cheia de cores de seu tempo poder acomodar dezenas de cores em um só cartaz, Lautrec geralmente escolhia apenas 4 ou 5, raramente, 6 cores. Pois, preferia criar seus efeitos com justaposições e modulações delicadas.

Toulouse optou por retratar a vida em Paris. A prostituição era oficial entre 1804 – por ordem de Napoleão – até 1945 – quando a atividade foi proibida por lei. E encarada como um mal necessário, capaz de acalmar os ânimos masculinos e assim preservar a “pureza” das mulheres solteiras e a ordem pública. As mulheres deviam se inscrever na prefeitura e, em seguida, numa maison close – literalmente “casa fechada” -, onde normalmente moravam. Esse fato marcou a temática do trabalho de Toulouse que acabou girando em torno do esplendor, sensualidade e atmosfera burlesca: destacando a representação das mulheres. Retratando o machismo travestido em esplendor boêmio.

Apesar da prostituição ser tolerada e regulamentada, era moralmente reprovada pela sociedade. Os críticos da época que trataram das pinturas das maisons closes (bordeis) elogiavam os aspectos técnicos ou formais das obras, como o maravilhoso desenho ou o belo colorido. Porém faziam questão de manifestar sua reprovação ao tema. Em 1893, um crítico escreveu que “É pouco provável que se recomende os temas (da pintura de Toulouse) às senhoras, mas sua execução é inegavelmente hábil”.

Infelizmente, não conhecemos os nomes de diversas representantes femininas, em contrapartida sabemos o nome de todos os homens nas pinturas de Toulouse, um sintoma bastante eloquente da discriminação entre homens e mulheres e do papel social de cada um, que também notamos na cultura visual. Mesmo assim, Toulouse-Lautrec parece duvidar das promessas fáceis de felicidade da nascente indústria de entretenimento, pois as feições das mulheres esboçam tristeza, distância da realidade, olhares vagos, apatia, impaciência. Dando espaço para perguntas: Porque conhecemos o nome dos homens, mas não conhecemos o nome das mulheres? Quem é essa mulher?

Por meio das vestimentas e da caracterização do recinto identifica-se a posição social dessas mulheres, mas, ao jogar a modelo no anonimato, verifica-se a posição das mulheres numa sociedade que as objetifica, que as usa e que as mercantiliza como produto de um prazer. Toulouse-Lautrec era próximo das mulheres que habitavam as maison close parisiense, então o artista pode (e quis) retratar as prostitutas durantes seus afazeres cotidianos, a partir de um ponto de vista, considerado, afetuoso. Pois, elas não são representadas através de um olhar desejoso, não se insinuam ao espectador.

Além, representações da homossexualidade feminina são comuns na obra de Toulouse, em pinturas de grande delicadeza. A partir de 1870, o tema tornou-se muito popular entre escritores e artistas que buscavam representar a modernidade decadente de Paris. A maioria das imagens deste tipo tratava as amantes como objetivos de um espetáculo destinado ao consumo masculino, mas Toulouse não repete o estereótipo: ele as retrata com dignidade humana que pouco se notava no período. Despretensiosamente, o artista subverte o imaginário da época com relação ás amantes: homens não estão presentes e não estão convidados; eles eram, porém, os principais espectadores da pintura.

A seguir, selecionei os quadros que mais mexeram com meu imaginário:

A condessa Adèle (1880 – 82)_óleo sobre tela

1880 - 82 _ A condessa Adèle

Toulouse fez esse retrato de sua mãe aos 17 anos: a condessa Adèle. Sentada num banco de jardim, com uma pose respeitosa e contida, como convinha á tradição de retratos das altas classes sociais. Sua roupa de estampa florida e com babados, sugere uma relação de proximidade com o jardim.

Mulher com cachorro (1891) _ óleo sobre cartão

1891_Mulher com cachorro _ óleo sobre cartão

Nas duas pinturas vemos a representação (talvez crítica, espero que crítica) da pintura ocidental:

  • o cachorro aparece muitas vezes junto à figura feminina, simbolizando a fidelidade matrimonial. Para a sociedade europeia dos anos 1890, algumas das qualidades mais importantes da mulher eram a fidelidade ]á sua família e a obediência ao seu marido.
  • a mulher no século 19: que se vestisse com delicadeza e sem artifícios, e que fosse bela e discreta, obediente ao marido e dedicada a família.
  • O jardim não é simplesmente decorativo, pois em muitos retratos da virgem Maria, há um pequeno “jardim fechado”, símbolo de sua pureza.

À la Bastille (1888) _ Óleo sobre tela

1888_À la Bastille _ Óleo sobre tela

Em 1885, Aristide Bruant (1851-1925) fundou o famoso cabaré Le Mirliton, onde se apresentava com canções cheias de gírias e crítica social. Nini (personagem da canção representada pela artista Jeanne Wenz), representada na foto abaixo, trabalha num bar para sustentar seus pais. As mulheres que trabalhavam fora de casa, ou mesmo as que frequentavam o espaço público, eram moralmente reprovadas pelos burgueses da época.  Ao retratar a moça encarando o espectador, Toulouse parece aludir ou pleitear a presença da figura feminina na vida urbana. Me pergunto se não é a mesma Nini do filme Moulin Rouge?

Moulin de la Galette (1889) _ Óleo sobre tela

1889 _ Moulin de la Galette _ Óleo sobre tela

No alto da Colina de Montmartre, em Paris, ficava o famoso Moulin de la Galette, antigo moinho que, no século 19, funciona como bar e salão de dança. Os clientes eram pessoas comuns que subiam as ruas íngremes em busca de algumas horas de prazer, num lugar onde poderiam dançar, beber barato e esquecer da mal paga jornada de trabalho.

Vemos mais de 20 personagens, desde três mulheres e o homem de perfil em primeiro plano, até outros ao fundo, como o policial e os homens de cartola. A diagonal traçada pelo desenho da bancada que divide o quadro e os territórios dos personagens organiza o espaço e a composição, conferindo ritmo e coerência a uma mescla bastante diversa de aplicação de traços e cores na tela – dos personagens em primeiro plano aos mais difusos e tênues ao fundo.

A mesma bancada parece envolver o espectador, trazendo-o para dentro da pintura. É como se estivéssemos sentados em frente a uma pilha de pratos, que marcam a contagem de bebidas consumidas e compartilhássemos a atmosfera inebriante do Molin.

Mulher se penteando em camisola (1891) _ óleo sobre cartão

1891_Mulher se penteando em camisola _ óleo sobre cartão

Cena delicada dentro de um bordel, em que duas mulheres calmamente se penteiam em frente ao espelho. O quadro atesta a intimidade do pintor com elas, transmite um sentido de confiança e respeito.

Femme au boa noir (1892) _ óleo sobre cartão

1892_Femme au boa noir _ óleo sobre cartão

MARAVILHOSO E FORTE! Um dos meus quadros favoritos! a mulher fita o espectador de modo confiante, sorriso irônico e desafiador. No século 19, as mulheres que usavam maquiagem não eram bem-vistas, muito menos aquelas que levavam uma vida indecente.

Portrait de femme de la maison de la rue d’Amboise (1892) _ Óleo sobre tela

1892_Portrait de femme de la maison de la rue d'Amboise _ Óleo sobre tela

Em 1892, a dona de uma maison close encomendou a Toule retratos das mulheres que moravam e trabalhavam ali, e ele fez um conjunto de 16 pinturas ovais para a decoração do luxuoso salão de entrada.

Os retratos ovais tinham um caráter ambíguo, celebravam a importância daquelas mulheres – como na tradição de retratos de imperadores, reis, rainhas e pessoas ilustres que adornavam palácios -, mas também serviam como publicidade, oferecendo-as como objetivo de consumo aos clientes da casa.

As duas amigas (1894)_óleo sobre cartão

1895_As duas amigas_óleo sobre cartão

O clima calmo e intimo. As duas mulheres se abraçam e parecem se acariciar em busca de afeto, satisfação, consolo ou proteção. Elas estão no famoso divã vermelho do salão de entrada da maison close, provavelmente durante o breve tempo livre em que aguardavam o próximo cliente.

Seule (1896)_ óleo sobre cartão

1896_Seule _ óleo sobre cartão

Minha pintura favorita da mostra foi Suele (só). Um estudo feito para uma das litografias que compõem o álbum sobre o cotidiano das mulheres que viviam em bordeis, chamado Elles (Elas) publicado em 1896.

Uma mulher de roupas brancas está deitada na cama; suas pernas vestidas com meias pretas pedem para baixo. Seu corpo parece se fundir com os lençóis, como se fossem feitos da mesma matéria. Isto é enfatizado pelo fundo castanho do cartão sobre o qual a pintura é feita que une todos os elementos representados pelo artista – mulher, cama, lençol, travesseiro, quarto.

As pinceladas de tinta a óleo são rápidas e leves, porém expressivas, sobretudo na cor branca que dá volume e definição a imagem. O resultado é um trabalho bastante sintético, feito com poucos elementos, mas de grande carga emotiva. É considerado um dos trabalhos mais fortes do artista.

Uma possível leitura é a da mulher finalmente a sós com seu corpo, seus pensamentos e sonhos. Talvez sugira algo dramático: uma mulher exausta, massacrada pela vida da prostituição, sujeita às regulamentações da polícia, ao controle da dona do bordel, à competição com as outras mulheres e ao ciclo constante de clientes.

Moulin Rouge (1891) _ Litografia

1891_Moulin Rouge _ Litografia

Este cartaz foi colocado nas ruas de Paris para divulgar a apresentação da dançarina Louise Weber (1866-1907) conhecida como La Goulue – a gulosa – e de seu parceiro, Velentin le Désossé – o desossado, que se chama Jules Renaudin (1846-1947). O cartaz fez um enorme sucesso e consolidou a fama de Toulouse como cronista parisiense.

Em dezembro de 1891, ele escreveu à sua mãe contando a novidade, e também ao grupo belga Les XX perguntando se poderia envia-lo à exposição que estavam organizando em Bruxelas.

Na imagem, vemos o corpo flexivel de Valentin em primeiro plano e, ao fundo, uma multidão de espectadores como silhuetas em um teatro de sombras. No centro da composição, um grande volume branco mostra La Goule levantando sua saia e mostrando sua roupa de baixo. Era algo escandaloso para época, e talvrz por isso seja uma área da gravura em muito detalhamento.

O Moulin Rouge foi o primeiro cabaré a ser iluminado com luz elétrica em Paris, e Toulouse faz o penteado da Gliuse replicar as luzinhas amarelas do lugar.

Jane Avril no Jardim de Paris (1893) _ Litografia

1893_Jane Avril no Jardin de Paris _ Litografia

Jane Avril foi uma dançarina de cabaré mais famosas no final do século 19 em Paris e grande amiga de Toulose que a retratou diversas vezes. Sua história é impressionante: Filha de uma cortesã, teve um infância difícil e fugiu de casa aos 13 anos. Em seguida, após ser diagnosticada com a “dança de São Vito”, distúrbio neurológico que afeta a coordenação motora, foi internada no hospital Pitié-Salpêtrière para mulheres histéricas, em Paris. Durante um dos bal des folles, ou seja, o baile das loucas do hospital, Avril começou a dançar e, segundo conta em seu livro de memórias, encontrou cura para seu disturbio e também sua vocação artistica.

Jane Avril encomenda um cartaz para sua apresentação no cabaré que ficava na avenida Champs-Élysées, em Paris. As poucas cores e grandes dimensões seria colocado nos muros da cidade e foi criado de modo a chamar a atenção dos pedestres apressados.

No cartaz, a mão de um músico e seu instrumento tranformam-se numa moldura para a dançarina e fazem um paralelo com suas meias pretas. Vale ressaltar que apesar de toda a sugestão de festa e divertimento, Avril tem o olhar distante, e Toulouse – Lautrec parece duvidas das promessas fáceis de felicidade da nascente indústria de entretenimento.

Troupe de Mlle Églantine (1896) _ litografia

1896_Troupe de Mlle Églantine _ litografia

O fundo amarelo do cartaz pode ser associado à imoralidade: desde a Roma antiga até o século 18, a cor era usada para representar cortesãs; no século 19, passou a ser associado às prostitutas, que muitas vezes usavam roupas amarelas para serem facilmente vistas à noite.

Em 1899, Lautrec sofre de crises e é internado numa clínica psiquiátrica. Ao sair é constantemente vigiado para que não beba e não volte a frequentar os bordéis, vigilância que ele consegue burlar. Sua saúde vai-se deteriorando cada vez mais, até que, em 1901, não é mais capaz de viver sozinho. Henri despede-se de Paris com a certeza de que está com os dias contados. Sofre ataques de paralisia e quase não consegue mais pintar. Em 9 de Setembro de 1901, Henri de Toulouse-Lautrec morre, em consequência de um derrame.

Curiosidade:

Henri sofria de uma doença genética chamada: Pycnodysostosis, caracterizada por ossos frágeis e baixa estatura, Toulouse não ultrapassou a altura de 1,52 m. Tornou-se um homem com corpo de adulto, mas com pernas curtas de menino. Essa doença foi ocasionada por ter sido gerado por pais que eram primos de primeiro grau.

A exposição será exibida até 01/10. A entrada é franca as terças. E eu pretendo revê-la.

sarah adulta eu

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