Como dar o melhor de sí?

Prulúdio
Havia um homem que, desejando transcender seu sofrimento, foi a um templo budista para encontrar um Mestre que o ajudasse. Dirigiu-se a ele e perguntou:
– Mestre, se eu meditar 4 horas por dia, quanto tempo vou levar para me iluminar?
O mestre olhou para ele e respondeu:
– Se meditar 4 horas por dia, provavelmente chegará a iluminação em 10 anos.
Imaginando que poderia fazer melhor, o homem perguntou:
– Mestre, se eu meditar 8 horas por dia, quanto tempo levarei para transcender?
– Se meditar 8 horas por dia, talvez possa atingir a iluminação em 20 anos.- respondeu o Mestre.
– Mas por que levarei mais tempo se meditar mais? – indagou o homem.
– Você não está aqui para sacrificar sua alegria ou sua vida. Você está aqui para viver, para ser feliz, para amar. Se puder dar o melhor de si em duas horas de meditação… Mas se gasta oito horas, só vai se cansar, perder o objetivo principal e não aproveitará sua vida. Dê o melhor de si e talvez aprenda que não importa quanto tempo você medita, pode viver, amar e ser feliz.
sarah adulta eu
O texto de hoje foi apenas um prelúdio do próximo post onde vou falar sobre a filosofia Tolteca. Não é só a comida mexicana que é boa. Aguardem…

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Utópias, Distopias e Eutopias

utópias, distopias e eutopias

utópias, distopias e eutopias

É fácil condenar. Exigente é amar, servir e dispor-se em favor da vida. O ser humano e a infinita teima interrogante do saber. De onde viemos, por que viemos, quem somos, o que vem depois? Os porquês da ciência são rasos. No final, são reduzidos mapas, registros e explicações cada vez mais precisas e minuciosas da superfície causal do que acontece.

O físico Steven Weinberg afirma que “Quanto mais o universo parece compreensível, mais ele parece destituído de proposito”. Poderia alguém tecer uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão limitadas, frágeis e rusticas são as nossas mais sofisticadas e inspiradas tentativas de responder aos “por quês” da existência e tapar com mitos e explicações de toda ordem os buracos da nossa infinita ignorância.

utópias, distopias e eutopias

Inadvertidamente o sobrenatural está sendo banido da natureza. E paradoxalmente, a ciência percebe o mistério do mundo cada dia mais insondável. Sendo assim, perceveram duas incógnitas, o antes de nascer e o depois de morrer, duas eternidades que circunscrevem o espasmo da vida.

Não obstante, se a imortalidade fosse concedida aos seres humanos, acabariam todos enfadados. “Nascer é uma desgraça, viver é doloroso, morrer é uma dificuldade” dizia São Bernardo.

Então se a fome de sentido é inerente a condição humana, as formas e estratégias de aplaca-las são infinitas. Shakespeare dizia “Os nossos pensamentos são nossos, mas os seus fins não nos pertencem”, ou seja, nenhum autor consegue controlar o uso das suas ideias.
Navega-se no terreno das probabilidades e não das certezas. Muitas coisas são resultado da ação humana, mas não da intenção humana. Todo ato, por mais simples, extrapola a pretensão de quem o pratica.

O mundo moderno elegeu três ídolos para usurpar o trono dos antigos deuses: o avanço da ciência; o progresso da tecnologia; e o crescimento da renda e riqueza e da riqueza. O indivíduo enche a boca para dizer palavras nobres e ocas.

utópias, distopias e eutopias

Brinda-se o fim  do ócio criativo que é algo muito distinto do lazer cronometrado. Acompanhado do crescimento da espiral do descontrole humano. Homens e mulheres afogados no sono sintético, presos entre a excitação efêmera e o tédio tardio. Talvez, algum dia a farmacopeia fornecerá também profundidade.

utópias, distopias e eutopias

Fernando Pessoa foi tradutor de cartas comerciais, T.S.Eliot bancário, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade servidores públicos. Esses criadores, dentre tantos, embora premidos a trabalhar para pagar as contas no final do mês, encontraram trabalho fora do emprego – uma razão de viver. Então, o que define trabalho?

Verso e reverso. O ter, e não o fazer, define a sociedade atual. O aumento da renda faz crescer a sensação da falta. O consumo é visto como: o território sagrado para o exercício da liberdade individual. A humanidade é serva do ganho, livre e soberana no gasto. No final de tudo, o ser humano no fundo continua sendo um animal selvagem e terrível.

utópias, distopias e eutopias

Dizem que tudo em excesso faz mal. Então, é logico dizer que pode-se pecar pelo excesso de moderação. Assim sendo, o ceticismo não é uma sabedoria, está mais para uma renúncia; o niilismo desemboca no suicídio e em formas degradadas de credulidade, como os fanatismos políticos. A arquitetura, a música e a reza partilham dessa insanidade: as artes afundam nos truques e convites ao devaneio.

utópias, distopias e eutopias

Na sociedade perfeita, seja como que for, não haveria o que mudar. Sendo assim, as utopias acabam-se tornando eutopia, ou seja, lugar feliz. Não obstante, a eutopia de alguns pode ser a distopia de outros.

A inadaptação a um meio mórbido, por incapacidade ou recusa, afinal, é um sinal de sanidade. Mas superar deficiências e atacar pendencias, por mais clamorosas, não é o mesmo que afirmar valores. Toda cultura incorpora um ideal de felicidade. A lógica sozinha não move: a criação do novo exige sonho.

Reconciliado consigo próprio. É garimpando o cascalho das nossas apostas, conquistas e fracassos que chegaremos a lapidação dos nossos saberes e potencialidades. O segredo da utopia reside na arte de desentranhar a luz das trevas. O futuro se redefine sem cessar – ele responde à força e à ousadia do nosso querer. Vem do breu da noite espessa o raiar da manhã.

utópias, distopias e eutopias

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Em primeira pessoa:

Veio de presente para mim o livro “Trópicos utópicos” de Eduardo Giannetti. Se pudesse definir o livro em uma palavra seria: questionamento. O livro representa um conjunto de ensaios, todos embasados em filósofos, sociólogos, teólogos, economistas, em fim, um conhecimento nada modesto usado apenas para incitar o leitor a arte da indagação.

Além de tudo, é o mais puro abuso da língua portuguesa (ou seria da língua brasileira?!), ele ousa com palavras e expressões de cunho elevado que termina por garantir o que Schopenhauer chamaria de “uso sutil dos vocábulos”, ou seja, acaba por conferir ao autor uma certa “autoridade credencial”. Contudo, o autor (aparentemente) não tem intensão de se impor, pois se contra argumenta em cada novo texto.

A leitura é sempre uma experiência estritamente individual. Porém, vive-se a era twitter, facebook que aparentemente proferiu a todos o direito divino a “verborragia” interminável e inescrupulosa, por vezes, cansativa. O autor, Eduardo Giannetti, acredita que “a natureza e as sociedades humanas são portadoras de energias regeneradoras das quais mal desconfiamos”, eu espero que ele esteja certo.

Quando ele propõe “a ciência ilumina, mas não sacia – e pior: mina e desacredita todas as fontes possíveis de repleção” o leitor pode revoltar-se e crer que o autor é um religioso fanático. Superada essa barreira, o leitor pode espantar-se com: “existe mais mistério no ser de uma simples flor ou de um aleatório grão de areia do que em todas as religiões do mundo“.

utópias, distopias e eutopias

Carol Bensimon, escritora brasileira, escreveu: “Não preciso ler obras que propaguem meus valores feministas porque entendo que isso pode-se tornar extremamente perigoso: romances, sob hipótese alguma devem ser escritos como cartilhas que pregam essa ou aquela ideologia“. Muita gente diz detestar a obra de Nietzsche porque ele é machista, ou se nega a ler Marx por medo extremo de se tornar comunista. E eu me questiono, onde reside o senso crítico? Ou se é obrigados a mudar de opinião quando nos expomos a outros fatos?

É delicada a forma como o autor entende e defende a liberdade de crença “Ao imaginar que a crença em Deus é algo que possa ser ligado ou desligado da mente como se opera um interruptor elétrico; (…) o contrario seria como supor que alguém dilacerado por um amor fracassado pudesse reencontrar a paz mediante uma hipótese explanatória ou um raciocínio lógico.

E enquanto submergia no livro me questionava: Serei um dia capaz de organizar minhas ideias de uma forma tão simples e rica? Me deparo então com a sentença “A lógica sozinha não move: a criação do novo exige sonho“, não obstante ele completa com “É garimpando o cascalho das nossas apostas, conquistas e fracassos que chegaremos à lapidação dos nossos saberes e potencialidades.

Sendo assim, escrevi essa releitura do livro, espero que não tenha ficado tão aquém do livro, e também espero que suscite em quem ler esse texto a curiosidade em conhecer o livro.

utópias, distopias e eutopias

Por fim, obrigada Diego!

sarah adulta eu

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Sobre gostar do espaço, de física, de ciência

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Adoro dizer que sou cientista. E falo com muito, muito orgulho. Apesar de seguir minha carreira na área biomédica, nutro um grande interesse paralelo pela física, pelo espaço e pelo conceito de tempo. Aliás, tem alguém que não se admire com as impossibilidades da vida?

No fim do ano passado eu li “Uma breve história do tempo”, do Stephen Hawking, e a Sarah já deu uma aula aqui. Enrolei e enrolei para escrever porque eram tantas coisas que valiam ser mencionadas… Escolhi uma para agora (e prometo que não vai ser repetitivo). Preciso falar sobre ciência, e sobre sua popularização.

Não só um grande físico – absolutamente brilhante –, Stephen Hawking também é um nome de peso na popularização da ciência. Seus livros alcançam milhares de pessoas e com uma linguagem acessível a qualquer curioso, apesar dos temas densos. Mais especificamente em Uma Breve História do Tempo, aprendi mais sobre astrofísica do que jamais na minha vida. E não só isso, um dos principais motivos para eu achar esse livro tão incrível é a visão de história da ciência que ele contém. O próprio nome já dá a dica, mas se alguém não pegou de primeira (como eu, antes de ler o dito cujo), todo o livro relata como o entendimento sobre o tempo evoluiu… ao longo do tempo.

Muito mais do que jogar conceitos na nossa cara – como as escolas normalmente fazem, acho que o melhor jeito de criar interesse pela ciência é contando um pouco de como as coisas foram descobertas. E isso não se restringe à física, o entendimento sobre os diferentes papéis das áreas do cérebro por exemplo, é facilmente compreendido quando se conta sobre o Sr. Leborgne ou o paciente H.M. (Sim, essa sou eu claramente puxando a sardinha pro meu lado)

Voltando pra física e, mais especificamente para a astrofísica – como é o foco do livro de Hawking, tem uma história que eu acho particularmente curiosa e interessante: Tycho Brahe. Vejam o vídeo abaixo e digam se não seria muito mais interessante aprender assim na escola. O nome pode não soar familiar para muita gente, mas foi graças ao trabalho dele que Johannes Kepler pôde desenvolver seus estudos que acabariam por descrever os movimentos dos planetas.

Não se assustem, o vídeo tem legenda em português. É só ativar, caso não apareça direto.

Observação pertinente: acho particularmente interessante como tanto conhecimento foi acumulado em épocas sem tecnologias digitais. Sempre me deixa embasbacada.

Muitas outras iniciativas para a popularização da física e da ciência merecem ser mencionadas, mas vou me restringir a três delas:

1. Cosmos

STS-125 Atlantis Solar Transit (200905120002HQ)

Atlantis space shuttle, 2009. Créditos: Nasa/Thierry Legault

Provavelmente a iniciativa mais conhecida do mundo, iniciada por Carl Sagan, ganhou recentemente uma versão apresentada por Neil deGrasse Tyson – que está no Netfilx!!! Um episódio que me vem a cabeça agora e que se relaciona bem com o início do livro de Hawking é o episódio 7 da primeira temporada, que conta a história da descoberta que tornou possível calcular a idade da Terra. Como eu disse, eu acho incrível aprender ciência através da história, e essa séria reflete muito bem essa ideia. Esse episódio em particular conta como, a partir das datas mencionadas na Bíblia, alguém fez o primeiro cálculo da idade do planeta e chegou a uma conclusão comicamente “exata”, com hora e tudo. Como os episódios não tem uma ordem muito necessária, podem pular direto só pros temas que forem de interesse. Esse episódio também pode ser visto no YouTube.

2. Nerdologia

Uma das iniciativas brasileiras de maior visibilidade, o canal tem um foco nos princípios científicos relacionados (ou não) à cultura pop e de ficção científica. Apesar de ele ser “Átila, o biólogo”, o canal aborda uma variedade incrível de temas com uma linguagem bem simples mas que não se torna errada. Acho que uma das maiores dificuldades que os cientistas e jornalistas enfrentam para explicar ciência para o público geral é tornar a linguagem acessível, sem termos técnicos ou necessidade de muito conhecimento prévio, e ainda não simplificar demais ao ponto de que os conceitos passem a estar levemente errados e passíveis de múltiplas interpretações. Variando agora para o tema de comportamento da luz, esse episódio bem legal (e que conta a pesquisa de uma física brasileira!).

3. Leopoldo de Meis

Até hoje esse é o nome que se encontra na porta do meu laboratório, apesar de já ter passado mais de dois anos do seu falecimento. Não posso falar de divulgação científica no Brasil sem mencionar o fundador do instituto no qual faço mestrado hoje. Leopoldo de Meis teve um grande papel na pesquisa em metabolismo energético e deve ser um dos brasileiros que mais chegou perto de uma indicação ao Nobel, mas seu legado se estendeu muito mais do que isso. Ele escreveu livros e gravou filmes, sempre tendo como alvo o publico escolar, e criou a Rede Nacional de Educação e Ciência, para levar suas iniciativas de Cursos de Férias para todo o país. Aqui na UFRJ, o projeto se mantém ativo desde os anos 80 com duas edições anuais, nas quais recebemos nos laboratórios do IBqM alunos e professores do Ensino Médio. Hoje o curso ocorre ao longo de uma semana, na qual os participantes podem propor as perguntas que querem responder, planejar os experimentos e executá-los, levantando ou comprovando hipóteses através da aplicação do método científico. Tive a sorte de ser monitora de um desses cursos em janeiro agora e foi mágico ver a ciência despertando nos olhos de gente brilhante mas que tem poucas oportunidades. Vale dizer que a participação desses alunos pode continuar ao longo de um ano desenvolvendo projetos científicos inovadores, muito além daquela curiosidade inicial.

No YouTube tem esse vídeo, que está dividido em 3 partes, mas essa contém o trecho que mais marcou o que seria o início da minha carreira científica quando vi ele próprio apresentar ao instituto que hoje leva seu nome. A quantidade de conhecimento científico que geramos hoje é muito maior do que qualquer pessoa consegue acompanhar, e sobre isso dá pra eu ficar horas conversando. Na verdade só agora enquanto escrevo me dei conta, mas isso meio que acabou se tornando o tema da minha pesquisa.

Acho que já tem bastante material interessante aqui, e já divaguei um bocado também. Acho que vou gostar de escrever mais sobre ciência por aqui.

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Entre intrigas, Big Bangs, Buracos Negros e o formato do universo

Uma breve história do tempo

Texto escrito ao som do álbum dark side of the moon/ Pink Floyd

O que define uma boa teoria cientifica?
Uma teoria cientifica precisa ser simples e fazer previsões precisas que podem ser testadas pela observação.

Hoje vamos falar sobre o universo…
uma breve história do tempo

O astrônomo americano Edwin Hubble formulou em 1924 a imagem moderna do universo. Ele provou que a nossa galáxia não era única. Hubble notou que certos tipos de estrelas sempre tem a mesma luminosidade quando estão perto o bastante para serem medidas, então usou o método indireto para realizar os cálculos, determinando as distâncias até outras galáxias.

Como esse método de medição funciona…

Lembram-se de Newton? Ele descobriu que, se a luz solar passa através de um prisma as cores que a compõe (espectro) são separadas como um arco íris.
uma breve história do tempo

Com um telescópio moderno podemos adaptar esse conceito para estrelas e galáxias. Então é possível determinar a temperatura de uma estrela. Foi então que percebeu-se que faltam certas coras muito especificas nos espectros de estrelas.

Precisamos falar sobre o EFEITO DOPPLER aplicado ao espaço sideral…
uma breve história do tempo
Em 1920, os astrônomos observaram os espectros das estrelas em outras galáxias e descobriram que faltavam os mesmos conjuntos característicos de cores nas estrelas de nossa galáxia, e todos os espectros desviam em direção a extremidade vermelha.

  • O que é a luz?

A luz consiste em flutuações, ou ondas do campo eletromagnético. Os diferentes comprimentos de luz são o que nos entendemos como cores. Os comprimentos de onda mais longos são vermelhos e os mais curtos azuis.
Por tanto, se as estrelas se afastam terão os espectros desviados para cor vermelha, e se elas se aproximam terão um desvio para o azul.
CURIOSIDADE: A polícia usa o Efeito Doppler para calcular a velocidade de um veículo medindo o comprimento dos pulsos das ondas de rádio.
Voltando…
Hubble descobriu que a maior parte das galáxias exibia um desvio para o vermelho, ou seja, elas estavam se distanciando de nós. Além disso, em 1929, ele descobriu quanto mais distante está uma galáxia mais rápido ela se distancia de nós. Uma revolução! Até então, as pessoas acreditavam que o universo era estático. Ou seja, além do universo não ser estático, ele estava se expandindo.

  • Por que ninguém percebeu isso antes?

Esse comportamento do universo poderia ter sido previsto com base na teoria da gravitação de Newton. Contudo a crença em um universo estático era tão forte que ela persistiu até o início do século XX.
Vale ressaltar que Eisntein, ao formular a teoria da relatividade geral (1915), tinha tanta certeza que o universo era estático que modificou sua teoria para tornar isso possível. Ele alegou que o espaço-tempo tinha uma tendência inerente a se expandir e que isso poderia acontecer exatamente para compensar a atração de toda matéria no universo, de modo que o resultado seria um universo estático.
Mas não paramos aí….

Alexander Friedmann (1922), físico e matemático Russo, fez duas suposições simples sobre o universo:
1. A partir da nossa galáxia, o universo é idêntico em qualquer direção, ou seja, somos o centro do universo;
2. O universo deve parecer o mesmo em qualquer direção visto de qualquer galáxia, ou seja, não somos o centro do universo;
Arno Penzias e Robert Wilson, físicos americanos (1965), estavam testando um detector de micro-ondas muito sensível. Eis que, o detector estava captando mais ondas do que deveria. Esse ruído não vinha de nenhuma direção em particular. Então eles começaram a procurar os prováveis defeitos no aparelho, mas logo descartaram essa possibilidade. Percebeu-se que os ruídos eram os mesmos em qualquer direção que o detector fosse apontado, de modo que devia vir de fora da atmosfera.
Nessa mesma época, Bob Dicke e Jim Peebles, físicos americanos, estudavam as micro-ondas. Eles trabalhavam na hipótese que o universo primitivo deveria ser muito quente, denso e incandescente branco e acreditavam que ainda seria possível visualizar esse brilho, pois a luz de partes distantes somente estaria chegando até nós agora.

E você achando que não existia picuinha no mundo da física…

Penzias e Wilson souberam da pesquisa de Dicke e Peebles, e perceberam que eles haviam encontrado a resposta para o problemas deles nos ruídos captados pelo seu detector. Por esse feito ganharam o Prêmio Nobel em 1978.

Voltando para Friedmann e o centro do universo…
Sem querer, Penzias e Wilson esbarraram na 1ª hipótese de Friedmann, de que nós estaríamos no centro do universo. Entretanto, sabe-se que o universo não é o mesmo em todas as direções (apenas em média escala), pois, em 1992, o satélite Cobe, verificou pequenas variações nessas medições.
No modelo de Friedman, todas as galáxias estão se afastando. Sendo assim, Imagine um balão com pintinhas se enchendo de ar:

À medida que o balão se expande, a distância entre 2 pontos aumenta, mas não existe um ponto que possa ser identificado como o centro de expansão.

Vamos forçar sua imaginação um pouco mais…

Friedmann encontrou um modelo. Porém três tipos de modelo correspondem a suas duas hipóteses fundamentais:
1. O universo está se expandindo devagar o bastante para que a atração gravitacional entre as galáxias faça com que a expansão desacelere até cessar. As galáxias então começam a se mover na direção uma das outras e o universo se contrai. Desse modo, a extensão do universo é finita.
Um breve historia do tempo
2. O universo está se expandindo tão rápido que a atração gravitacional nunca o detém, embora reduza sua velocidade. Desse modo, a extensão do universo é infinita.
Um breve historia do tempo
3. O universo está se expandindo depressa o bastante apenas para evitar um novo colapso. Desse modo, a extensão do universo é infinita e plana.
Um breve historia do tempo
Essas teorias todas ajudam os físicos a formular a provável forma do espaço.
No primeiro modelo de Friedmann o universo não é finito de espaço, porém o espaço tampouco possui contorno. A gravidade é tão forte que o espaço é curvado sobre si mesmo, mais ou menos como a superfície da terra.

Exemplo: Se alguém viaja constantemente em uma direção no nosso planeta, não cai pela borda. Ela acaba voltando para o ponto onde começou.
O espaço seria exatamente assim. A quarta dimensão, o tempo, também é finita em extensão, mas é com uma linha com duas extremidades ou contornos, um começo e um fim.
Se combinarmos a relatividade geral com o princípio da incerteza da mecânica quântica, é possível que tanto o espaço quanto o tempo sejam finitos sem bordas e nem contornos.

Muita abstração?!

A ideia de que alguém possa dar a volta no universo e terminar onde começou dá uma ótima ficção cientifica. Mas seria preciso viajar mais rápido do que a velocidade da luz a fim de terminar onde se começou antes do universo se extinguir.
Então vem a pergunta fundamental: Qual desses 03 modelos descreve o nosso universo? O universo vai se expandir para sempre? Ou o universo eventualmente voltará a se contrair?
Agora voltamos para o Efeito Doppler.

Aplicando o efeito doppler, pode-se determinar a taxa de expansão atual do universo ao medir a velocidade com que outras galáxias estão se afastando de nós. Entretanto, as distâncias para as galáxias não são bem conhecidas, pois só conseguimos medi-las de forma indireta. Assim, tudo o que se sabe é que o universo está se expandindo em algo entre 5% e 10% a cada bilhão de anos. No entanto, nossa incerteza sobre a densidade média atual do universo é ainda maior.

  • O que isso significa?

Somando-se todas as estrelas de todas as galáxias e a massa escura não temos força gravitacional suficiente para deter a expansão do universo. Então, a tendência atual é que o universo se expanda até entrar em colapso, o que deve acontecer em dez bilhões de anos.

Mas não se preocupe. A essa altura a menos que tenhamos colonizado outro sistema solar e nos mudado, a humanidade terá deixado de existir, pois será extinta junto com o sol.

Voltando para Friedman (e você achando que Einstein era o cara)…
As três soluções previstas pressupõem que o universo teve um começo: quando a distância entre as galáxias vizinhas deve ter sido zero.

Big Bang!

A matemática não pode lidar de fato com números infinitos, então chegamos num ponto onde a teoria da relatividade geral prevê que existe um ponto no qual a própria teoria deixa de ser válida. Isso se chama singularidade.
Mas o que isso quer dizer?
Mesmo que tenha havido eventos anteriores ao Big Bang, ainda somos incapazes de determinar pois a teoria da relatividade geral não se aplica. Deve-se assim eliminar a ideia de eventos anteriores e aceitar que o tempo se iniciou com o BIG BANG.

E isso causou o caos no meio acadêmico…

Muitos não gostam da ideia de que o tempo teve um início, porque isso remete ao conceito de Deus. Inclusive, a Igreja Católica acatou o modelo do Big Bang e em 1951 proclamou oficialmente que essa explicação estava de acordo com a Bíblia.

Em 1948, Hermann Bondi, Thomas Gold, Fred Hoyle sugeriram a teoria do estado estacionário: a ideia era que enquanto as galáxias se afastavam, novas galáxias surgiam nesse espaço, a partir da matéria nova criada continuamente.
Porém…
No fim da década de 1950, Martin Ryle e um grupo de astrônomos levantou as fontes de ondas de rádio provenientes do espaço. Esse experimento mostrou que a maioria das fontes deve se localizar fora da nossa galáxia e também havia muito mais fontes fracas do que fortes. Foi interpretado que as fontes fracas eram distantes e as fontes fracas eram próximas. Hipóteses:
1) Estamos no centro de uma grande região do universo onde as fontes são mais escassas do que em outras regiões;
2) As fontes eram mais numerosas no passado, quando as ondas de rádio partiram em sua jornada até nós;
As duas explicações inviabilizam a teoria do estado estacionário.
Em 1963, Evgenii Lifshitz e Isaac Khalatnikov, sugeriram que o Big Bang talvez moldasse uma peculiaridade exclusiva dos modelos de Friedmann. No universo real, as galáxias não estão apenas se afastando uma das outras – elas também apresentam pequenas velocidades laterais. Assim, ela nunca precisaram ter estado todas exatamente no mesmo lugar, apenas muito próximas umas das outras. Ou seja, talvez, o universo em expansão não resultasse de uma singularidade, mas de uma fase de contração.

  • Como provar que o universo começou com o BIG BANG?

Lifshitz e Khalatnikov estudaram o modelo do universo de modo parecida a Friedmann, mas levando em consideração as irregularidades e as velocidades aleatórias das galáxias no universo real. Eles argumentaram que, haveriam muito mais modelos como os de Friedmann sem singularidade de Big Bang.
Porém…
1970, eles voltaram atrás em sua alegação, quando descobriram que uma classe muito mais geral de modelos de Friedmann que de fato apresentavam singularidades e nos quais as galáxias não precisavam se mover de nenhuma forma especial.

  • No entanto, será que a relatividade geral prevê que nosso universo deve ter tido um Big Bang, um início de tempo?

Roger Penrose, 1965, demonstrou que uma estrela cedendo à própria gravidade fica aprisionada em uma região cuja superfície acaba por encolher ao tamanho 0. O mesmo acontece com o seu volume. Toda a matéria da estrela será comprimida a uma região de volume zero, de modo que a densidade da matéria e a curvatura do espaço tempo serão infinitas. Em outras palavras, tem-se uma singularidade contida dentro de uma região do espaço-tempo conhecida como buraco negro.

Então…
Stephen Hawking, 1965, percebeu que o teorema de Penrose mostrava que qualquer estrela em colapso deve terminar em uma singularidade. Hawking propôs que aplicando a reversão temporal podia-se entender o universo em expansão nos moldes de Friedmann, pois ele poderia ter se iniciado de uma singularidade.
Por razões técnicas, o teorema de Penrose exigia que o universo fosse infinito em espaço. Assim, o teorema foi usado para provar que haveria uma singularidade apenas se o universo estivesse se expandindo rápido o bastante para evitar um novo colapso.
1970, Hawking e Penrose, demonstram que deve ter havido uma singularidade de Big Bang, deste que a teoria de relatividade geral esteja correta e o universo contenha tanta matéria quanto observamos.
E mais o caos no meio acadêmico…
As oposições partiram dos russos, devido a crença marxista no determinismo cientifico, e em parte de pessoas que achavam que toda a ideia de singularidade era integrável e arruinava a beleza da teoria de Einstein.

Isso mostrou que a relatividade geral é uma teoria incompleta: ela é incapaz de nos dizer como universo começou, pois prevê que todas as teorias físicas perdem a validade no inicio do universo.

A ironia…
Stephen Hawking, atualmente, tenta convencer de que na realidade não houve singularidade alguma no início do universo. Pois, essa singularidade desaparece quando se leva em consideração os efeitos quânticos.
Mas esse assunto fica para um próximo post…

sarah adulta eu
Sugestões bibliográficas:
O universo em uma casca de nós (Stephen Hawking)
Uma breve história do tempo (Stephen Hawking)
Alice no país do quantum (Robert Gilmore)

Filme:
Quem somos nós?

E agradeço se você tiver mais alguma indicação!

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Liderança e Motivação: mudando as perspectivas.

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro

“Todos os dias ao me levantar, piso na minha vaidade para que ela não me desvie do caminho. ” (Página 192 – transformando suor em ouro – Bernardinho)

No livro “Transformando suor em ouro” Bernardinho fala sobre liderança e motivação para equipes, o enfoque dele se dá em direção aos gerentes de grandes corporações. Porém, eu percebi que tem muita aplicação para o nível pessoal, sendo assim, escolhi resenhar adaptando para o individuo, enfatizando a importância do autoconhecimento e da automotivação.

Você já pensou como você se sentiria caso perdesse o emprego? Afinal, O que te define? Quem é você? Você se orgulha de ser quem você é? O que te motiva? O que é sucesso para você? Como alcançar esse sucesso?

Muitas vezes externamos nossas insatisfações. A família não te compreende e não de dá apoio, o seu relacionamento não te faz feliz, o trabalho é ruim. A vida é um saco. É aí que você precisa pensar: o problema está nos outros ou em mim? Sempre falamos aqui sobre seguir seu coração e se dar uma chance de ser feliz. Mas isso é muito diferente de culpar o mundo e nunca analisar o que você faz para tornar o seu dia proveitoso.

A importância das questões existências são determinantes para analisarmos se o problema está na forma como vemos o mundo e na forma como vemos a nós mesmos. Não se isente da responsabilidade de mudar e não menospreze a reflexão, ela pode salvar sua vida.

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro desemprenho estresse

O gráfico acima ilustra a relação de desempenho versus estresse, tem como objetivo demonstrar que o ser humano não produz de não tiver algo que o Bernardinho chama de “senso de urgência“, ou seja, “Inconformismo, insatisfação: sem isso, não se dá um passo a frente“, porém caso o individuo ultrapasse o ponto ótimo, e ele esteja lidando com tensões superiores a sua capacidade “Se a tensão é alta diminui a cobrança, pois não adianta fazer pressão sobre quem está mal, triste e vulnerável.”.

Um ponto interessante que o Bernardinho defende “É importante criar dificuldade para os que tem talento, as facilidades limitam.”. Quando eu li essa frase pensei: Como criar dificuldades para si próprio? Como manter o foco no futuro? Como evitar a procrastinação? “O ideal é não elevar o ego as alturas, nem deixar que algo o jogue para baixo minando sua autoestima. É uma questão de equilíbrio.”.

Aqui trabalhamos dois conceitos a necessidade de se desafiar, se manter motivado e não se desprezar. Precisa-se encontrar um equilíbrio entre a autoestima e humilde, “O combate a acomodação é permanente. ” E qual é a chave para alcançar esse equilíbrio?Autoconhecimento.

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro desemprenho estresse Bob Knight

Bernardinho admite que durante sua caminhada como técnico ele nunca subestimou o estudo, as leituras, outro hábito que ele admite sempre buscar os porquês de cada erro. Me identifiquei muito quando ele afirma que esse “hábito que pode ser danoso”.

Minha psicóloga chama isso de ruminação, um mal hábito que consiste em reviver uma situação tantas vezes que a imaginação, uma grande tirana, aumenta e deforma as situações para o bem e para o mal.

Bernardinho conta que os pais dele não eram especialmente a favor dele seguir a carreira no vôlei, abandonando a formação de economista. Após sua aposentadoria como jogador, ele passou 1 ano sem entender para onde a carreira dele caminharia, até que surgiu uma oportunidade.

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro desemprenho estresse aristoteles

O Bernardinho treinou a equipe masculina e a feminina e sobre a diferença entre eles comenta: “De certo modo, o relacionamento com um grupo de mulheres pode ser mais fácil a medida que os sinais que elas emitem são mais claros. Demonstram melhor seus sentimentos, o que impede um ajuste mais fino na estratégia. (…) Em contrapartida, numa equipe masculina essa percepção é prejudicada pela dificuldade cultural que o homem tem de revelar o seus sentimentos. ” (Página 196 – transformando suor em ouro – Bernardinho).

Me pergunto: Será que os homens tem dificuldade de demonstrar sentimentos ou eles nem mesmo percebem que seus sentimentos e suas raízes que tem nos pensamentos? Agora posso retornar a autoconsciência: Como avançar sem entender o que te motiva? Sem entender seus sentimentos, pensamentos e atitudes?

Quanto mais nos conhecemos nossos erros e acertos, temos menos rompantes irracionais: “No entanto, é preciso evitar que as emoções se tornem excessivas e venham a tomar conta da razão. (…) É quando começam a surgir reações do tipo “ela não gosta de mim”, levando para o plano pessoal uma cobrança pessoal. ”.

Precisamos nos auto avaliar. Para sermos lideres primeiro precisamos perceber. Será que a maximizamos o negativo (quando um evento negativo pequeno toma tanta força que nada de mais é percebido)? Ou cometemos abstração seletiva (focar-se num único detalhe e esquecer todo o resto)? Ruminamos (repetição de ideias perturbadoras que ganham cada vez mais força)? Personalizamos (achar que você é o único responsável por tudo)? Ou então, somos vitima da ditadura dos deveria (perceber tudo como um dever, não encontrar prazer na rotina: Eu deveria me exercitar, Eu deveria passar mais tempo com meus amigos, eu já deveria ter filhos, carro e casa)? Precisamos ser os agentes de mudança, ou seremos vitimas dos nossos próprios erros.

Meta: Onde queremos chegar?
Planejamento: Como queremos chegar?

A pirâmide de John Wooden exemplifica os valores que precisamos cultivar para alcançarmos o sucesso, seja em qualquer área que escolhermos:

 

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro desemprenho estresse pirâmide do sucesso

“A confiança é base de qualquer relacionamento. E é sobre esse pilar que devemos construir nosso relacionamento com nossos colaboradores. ”      (Página 105 – transformando suor em ouro – Bernardinho)

A confiança em nós e nos outros nos permite o comprometido: (fruto de divisão de responsabilidades) e cumplicidade (fruto de egos e responsabilidades sob controle). Isso não significa que não devamos avaliar as pessoas a nossa volta, porém assim como não podemos deixar de avaliar os outros precisamos nos auto avaliar. Além disso, devemos exercitar a clareza de que na vida embora existam pessoas fundamentais, ninguém é insubstituível. Inclusive, nós.

“Atenção a todos os momentos – a decisão está sempre nos detalhes. ”        (Página 128 – transformando suor em ouro – Bernardinho)

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O autoconhecimento nos ajuda a identificar o que significa sucesso, pois este é um conceito muito pessoal, de múltiplas definições. E assim, pode-se partir para buscar a excelência que significa realizar da melhor maneira possível aquilo que se pretende. Sempre tendo em vista que o sucesso no passado não garante coisa alguma no futuro, a não ser a responsabilidade.

“As vitórias nos garantem apenas grandes expectativas e mais responsabilidades. Em função do nosso sucesso anterior, criamos nas pessoas a ilusão de que nos tornamos imbatíveis e de que nossas vitórias continuarão ocorrendo automaticamente. E nossa responsabilidade aumenta de forma proporcional à expectativa gerada: é o peso do favoritismo.”                   (Página 201 – transformando suor em ouro – Bernardinho)

Bernardinho adapta a pirâmide de Wooden, em uma roda, pois deve haver constância do melhoramento pessoal ou de equipe. Caso contrário, você que hoje ocupa o pódio, amanhã não ocupa mais.

liderança motivação Bernardinho transformando suor em ouro desemprenho estresse roda da excelencia

Será que a sorte existe? Então, Bernardinho cita  Tiger Woods diz “quanto mais eu treino, mais sorte tenho”. Ou seja, o êxito em qualquer situação depende muito do modo como nos preparamos para cumprir nossas tarefas, a (boa) sorte vem a reboque.

Por fim, achei que o livro muito bom e recomendo. Espero que essa resenha tenha inspirado vocês. Abaixo coloquei algumas indicações de outros livros que inspiraram o texto.

Referencia bibligráfica:

When pride still mattered: A life os Vicent Lombardi (David Maraniss)
Winning Ugly (Brad Gilbert)
The last Season: A team in search os its soul (Phil Jackson)
Good Strategy/ Bad Strategy (Richard Rumelt)
Nunca deixe de tentar (Michael Jordan)
Aprenda a ser otimista (Martin Seligman)
Gerenciamento de pessoas em projetos (FGV)

sarah adulta eu

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Resenha – Mentirosos

Mentirosos E Lockhart

Antes de começar, queria dizer que amo ganhar livros – independente do que vou achar deles depois de lê-los. Se a pessoa poderia me dar uma diversidade enorme de presente mas ela escolheu um livro, já subiu no meu conceito. Pelo menos um pouquinho ela presta atenção no que eu gosto e em quem eu sou.

Dito isso, esse livro foi um presente. Pela sinopse, Mentirosos (E. Lockhart), não é algo que eu escolheria, assim, de primeira numa livraria aleatoriamente. Aqui vai como ela está na capa do livro:

“Somos Sinclair.
Ninguém é carente.
Ninguém erra.
Vivemos, pelo menos durante o verão, em uma ilha particular.
Talvez isso seja tudo o que você precisa saber a nosso respeito.”

Não vou copiar a sinopse inteira porque isso já tem em um monte de lugares da internet – e outro dia mesmo eu comentava com a Sarah como me incomoda abrir blogs esperando uma resenha e tudo que acho é a sinopse…

Minhas impressões ao ler este livro foram bastante flutuantes ao longo das páginas. Em um primeiro momento, não gostei muito do estilo de escrita meio cortado, meio seco. Eu percebia o esforço de cada palavra para ser impactante e isso estava me irritando um pouco, mas acostumei.

Depois, não era mais o jeito de escrever e sim o conteúdo. As personagens pareciam possuir suas personalidades tão fechadas que a cada fala parecia que aquilo já tinha sido dito antes. Novamente, um esforço visível em fazê-los parecer pessoas ricas e superficiais – com exceção da protagonista, é claro.

Claro, porque fiquei com a impressão de ser um personagem já escrito antes – a menina que tinha de tudo e queria mais; a menina que se sentia muito superior ao ambiente superficial em que vive; alguém genérico que não se encaixa nos padrões esperados dela, sei lá.

Mesmo assim, em um certo momento o suspense do livro me pegou. Afinal, o que havia causado o acidente? Além disso, me identifiquei com seus momentos de solidão nas crises de enxaqueca e depressão, indistinguíveis. E nesse momento, já no final, que o livro conseguiu me prender eu viro uma página e lá está a resposta. Em destaque, no centro da página, em linhas cortadas, frases curtas, mais direto impossível, a resposta para todos os dramas, suspense e dor. Aí decidi que não gostei mesmo.

Me senti como se alguém, ao escrever o texto, não levasse fé em mim para chegar às conclusões certas através de sugestões implícitas e construídas aos poucos. Ou, o contrário, alguém (talvez até tenha tentado mas…) não conseguiu colocar sutilezas, indiretas e pistas inteligentes o suficiente para que ao final da leitura tivéssemos as soluções esperadas. Por motivos óbvios de sou mais eu, prefiro acreditar na segunda opção.

Apesar disso, o livro é muito bem avaliado no skoob. Não discordo que o final é surpreendente, mas não precisava ter sido me dado tão fácil. Talvez eu seja difícil de agradar, talvez eu só tenha passado da faixa etária adequada mesmo…
Adulta eu

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Resenha: Paddy Clarke Ha Ha Ha

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Há 3 meses estou participando de um clube do livro que se chama TAG experiências literárias. Todo mês um curador indica um livro e esse livro é encaminhado para os associados com um encarte que conta curiosidades do autor e da história. Descobri o clube através do Skoob (que é uma rede social para leitores). E tenho me surpreendido de maravilhosamente todos os meses.
Especialmente, o livro do mês de setembro indicado pela Maria Rita Kehl me marcou bastante. A começar pelo encarte:
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A um só tempo para ser amoroso e responsável” Essa frase é muito real para mim. Cresci em uma família desestruturada, um pai alcoólatra ausente e uma mãe bipolar completamente instável. Hoje, percebo que a família é um termo relativo, não se refere necessariamente ao sangue, é bastante importânte na infância e a importância se torna relativa na vida adulta.
Roddy Doyle escreveu o “Paddy Clarke Há Há Há” logo após o nascimento do seu filho. E quando eu acabei de ler eu só conseguia pensar “como ele teve coragem de ser pai tendo essa super consciência de todo aquele universo fantástico, confuso, e muitas vezes, mau em que as crianças vivem”. Como será que Paddy influenciou na paternidade do autor?
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Foto do encarte que veio com o livro – trechos retirados do livro “a casa das estrelas”

Nesse post não tem “spoiler” do livro. Acho que essa é a minha postagem mais pessoal. Eu aproveitei uma tarde mineira chuvosa e um momento de vida melancólico-criativo para dar voz aos sentimentos que permaneceram em mim após a leitura.

Transcrevi alguns trechos do livro que grifei. Gostaria de ressaltar apenas, que eles não refletem em sua totalidade a minha experiência quando infantil. talvez, o livro tenha me levado a focar muito na separação dos meus pais, e por isso não escrevi tanto a respeito das minhas traquinagens. Ou então, eu não tenha querido me prolongar tanto assim no post.

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Foto da capa do livro

  • “Sempre me perguntava se era pecado fazer hóstias. Achava que não. Uma das hóstias que deixei na janela ficou embolorada. Agora isso era pecado: Deixar as hóstias embolorarem.”: Religião sempre foi um problema para mim. Minha avó materna era católica, meu pai era espirita, minha mãe era tudo e mais um pouco – dependia de que meio “Deus” ia responder mais rápido. Eu estudei em colégio católico e fiz 4 anos de catequese no interior de Minas. Eu não sabia muito bem o que era pecado. Morria de medo do demônio. Não assisto filmes de terror.

 

  • “Papai cantava a musica do Batman; ele era assim, maluco as vezes, mas muito engraçado.”: Eu amava meu pai, completamente louca por ele. Lembro que ele me chamava de “zoca” que era o complementar ao nome dos meus gatos: zaca, zeca, zica (mamãe gata) e zuca. Essa é a melhor lembrança que tenho dele. O meu pai era meio doidão, era pouco presente e foi ficando cada vez menos presente. Hoje eu não participo mais da vida do meu pai.

 

  • “A primeira briga tinha terminado. Papai ganhou porque fez mamãe chorar. Acabou e pronto; tudo voltou ao normal, mas melhor que antes.”: Os meus pais brigavam muito. Mas não como os pais de Paddy. Era pior. Me lembro do meu pai trazendo facas pro quarto. Quem tirou as facas da mão dele foi o meu irmão, acho que ele tinha uns 5 ou 6 anos. Lembro de pegar a mãozinha dele no dia seguinte e pensar naquela mão bem pequenininha. Eu amo a existência do meu irmão.

 

  • Havia um cheiro bom da mamãe, da comida e de sabão”: Eu me lembro do cheiro da minha mãe quando ela chegava da faculdade de noite. Eu gostava daquele cheiro.

 

  • “Ele não podia simplesmente me dar a medalha. Tinha que fazer um comentário maldoso.”: A família do meu pai estimulava a competição entre os primos. Mas nós sempre soubemos quem eram os favoritos. Eu era aluna exemplar, mesmo assim não escapava dos comentários maldosos na mesa de domingo. A minha mãe ficava muito brava com eles. Hoje eu não tenho vontade de conviver com esses tios e com minha avó.

 

  • Não era justo o jeito que fazia a gente chorar antes de mudar de ideia e fazer o que a gente queria que fizesse.”: Chantagem emocional. Eu me lembro que depois que meus pais se separaram, eu mudei para o Rio de Janeiro. Meu pai não visitava. A família dele também não. Mas eu chorava implorando minha mãe deixar eu vir para Minas. Era um tormento. Era um cabo de guerra.

 

  • Estavam todos lá e eu não gostava deles. Me sentia completamente só.”: Resume bem a sensação que eu tinha nos almoços de domingo na casa da minha avó paterna.

 

  • “As vezes, quando a gente pensa em alguma coisa tentando entende-la, a resposta se abre sem a gente esperar, como uma luz esponjosa e suave, e aí a gente entende, faz sentido para sempre. (…) Não acontecia agora, porém. Podia pensar e pensar e penar e me concentrar e nada vinha.”: Mais tarde a situação de casa piorou. Minha mãe foi se tornando cada vez mais agressiva. Meu pai foi se tornando cada vez mais ausente. Após o pior natal da minha vida, denunciei os dois no conselho tutelar. Levei meu irmão para fazer exame de corpo delito. E todos tiveram que responder na justiça. Minha mãe foi obrigada a se tratar e meu pai a pagar a pensão atrasada e a justificar a falta das visitas e a negligencia.

 

  • “Queria fugir para meter medo neles, fazê-los se sentirem culpados, faze-los se reaproximarem. Ela iria chorar e ele a consolaria com abraços.”: Nada do que fiz pode transformar meus pais em pessoas amorosas. Porém me ajudou a ser alguém. Hoje com 27 anos, aceito que as pessoas são como são. E determinei que minhas as carências infantis precisam ficar na infância.

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Foto da caixinha da TAG (sempre um mimo)

Agradeço ao Patrick por me lembrar como funciona a mente infantil. Não existe, probleminha e problemão, existem problemas. Agradeço por me lembrar que irmãos absorvem e amadurecem de formas diferentes mesmo recebendo os mesmo insumos. Agradeço por me sensibilizar e fortalecer.

Eu não chorei no final do livro. Acho que já chorei o que poderia pela Sarinha. Apenas me preocupei com Patrick e Francis (seu irmãozinho) como fossem meus irmãos, eu quis salva-los, como eu gostaria de ter sido salva. Gosto de imaginar que eles se tornaram grandes adultos e que construíram famílias felizes.
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Trecho retirado do livro “vermelho e o negro” de Stendhal indicação do luiz ruffato de Junho

Obs.1: Ao amigo que teve paciência de ler até aqui.
Obs.2: Obrigada TAG pelo maravilhoso livro!
Obs.3: Se algum amigo quiser me dar de aniversário “a casa das estrelas”, eu vou amar!Image and video hosting by TinyPic

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Resenha: Caixa de Pássaros

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Filme de terror é uma coisa que sempre evitei, mas até assisto desde que seja uma atividade em grupo. Livros de terror, consequentemente, nunca me atraíram muito a atenção. Há alguns anos li A Estrada da Noite desavisada, achei incrível mas não era uma época pessoal de leitora ávida e o gênero acabou ficando esquecido.
Um dia por acaso, vi uma resenha breve da Caixa de Pássaros no instagram e logo em seguida topei com ele em destaque na livraria. Pensei na hora: “É tempo de dar a chance para livros de terror/suspense”. Não me arrependi.

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A história é a seguinte: o mundo é tomado por uma onda de violência e suicídios inexplicáveis, a única coisa que parece comum entre os casos relatados pela mídia é que as pessoas parecem ter visto alguma coisa imediatamente antes de enlouquecerem. Assim, a população começa a se isolar em suas casas, sem nenhum contato visual com o mundo exterior e com muito medo de algo desconhecido.

Pode continuar lendo que não tem spoiler! O livro tem seus capítulos revezando entre passado e presente da vida de Malorie, que cria dois filhos em meio a esse cenário. Não houve um momento em que eu não estava tensa com a leitura. A história traz ainda, não muito subliminarmente, a incrível força que vem com a maternidade, independente das circunstâncias em que ela ocorre (e eu acho isso uma mensagem muito sensível e bonita).
Eu classificaria mais como suspense do que como terror, apesar de que o terror teve suas aparições muito bem representadas por alguns capítulos. Cada vez que eu fazia um intervalo na leitura eu olhava pro mundo de um jeito diferente, meio tenso, como se algo de muito ruim pudesse acontecer a qualquer momento. E considerando a situação política do nosso país, não posso dizer que não tenho fundamento.

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O último 1/3 do livro foi de uma vez só, não conseguia parar até saber o que iria acontecer em seguida e essa sensação é muito boa. Algumas pessoas podem argumentar que ler deveria ser algo a te trazer prazer e relaxamento, em detrimento da tensão trazida pelos livros de suspense e terror. Pra mim, ler é (também) uma fuga da realidade e lidar com os terrores fictícios é infinitamente mais fácil do que lidar com a vida real. Inclusive, porque eles têm um fim.

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