Causos e confrontos: Linha 9 esmeralda

Linha 9 Esmeralda

Logo cedo a estação está repleta de transeuntes. É gente de todo tipo. Umas bem vestidas, umas com perfume forte de mais, umas falam alto, outras cochilam, muitas estão hipnotizadas pelo celular. É um novo tempo.
Margeando o Rio Pinheiros o trem linha 9 Esmeralda, liga o Grajaú a Osasco. As vezes corre tudo bem, as vezes não. É importante ouvir o SP TV cedinho com as informações do transito, metro e da CPTM. Só não vale confiar quando dizem que a situação se regularizou.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

A população está tão acostumada ao desconforto que passar a viagem sem lugar para respirar é normal. Quem pode vai de carro. Sustentabilidade não passou por aqui. Perduram os mesmos conceito de sempre. Até dá para dar umas risadas dos recortes de conversas.

– Tomara que minha patroa não tenha decidido cozinhar. Ela não sabe fazer nada, além de bagunça. Suja todas as panelas da casa só para fazer um macarrão.
– E lá não tem máquina de lavar-louça?
– Tem. Mas ela não sabe usar! Imagina que eu estou pegando as manias dela?! Agora eu tenho um monte de Tupperware. E fico guardando a comida nela.
– Ah! Mas eu também faço isso! Incrível como a gente pega as manias?
– Está chegando na estação Morumbi, agora vou dar uma caminhada até a casa dela. Se eu der sorte, ela vai passear hoje. Então vou poder trabalhar em paz.

A condição da mulher também é discutível no trem. Aquele homem encosta, encosta, encosta. Será que é falta de espaço? Será que ele está se aproveitando da situação? E cara feia nem sempre adianta. Reclamar também não resolve.

Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Quem anda de trem já viu de tudo. São contrastes sem fim. Enquanto, um rapaz está sentado analisando as fotos drag queen que tirou naquela tarde. Um pastor, com um terno porpurinado, tenta convencer um outro homem que Coca-Cola escrito ao contrario é diabo, que o celular android é coisa do demônio e que em um futuro próximo os humanos vão ter chips implantados no corpo e serão condenados ao inferno por isso. Por fim:

– Cuidado. Jesus está voltando.

Graças a Deus!

A Estação Pinheiros é provavelmente a mais movimentada de todas. De manhã é um alívio passar por ela. A tarde é um suplicio. Trem cheio, trem vazio. Trem com problema que vai de vagar. Mas pera. Com sorte na estação Jurubatuba sai um trem vazio. Faz frio, faz calor. Se possível libere as entradas e saídas do trem.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Entra um deficiente visual com um labrador. Um assento é liberado. Vários olhares comprometidos são trocados. O cão é fofo, mas não pode fazer carinho nele. O senhor saca o celular e fica escutando algo ao longo do trajeto. Cachorro bom, cachorro esperto, aproveita o passeio para tirar um cochilo com a cabeça apoiada no pé de alguém. E ele lá é bobo e dormir com a cara no chão do trem sujo?!

– Você olho para aquele cara. Por isso, não estava perto de mim.
– Eu juro que não. Tinha muita gente na estação, me atrapalhei.
– Você está tendo um caso!
– Não estou!
– Deixa eu ver seu celular!

O namorado (ou seria marido?!) segura a moça o mais próximo possível. Não pode imaginar que ela se separe dele nem que seja por milímetros. Bem-vindo a era do controle online. No minuto seguinte está fuxicando o celular em busca de provas. Afinal, se ele está com ciúmes, ela fez algo errado. Ou não?!

– O QUE?! Ela já vai ter outro filho?! E pobre lá pode ter esse monte de filho?! Ela deveria ser feito uma ligadura. – Diz a moça, bastante brava ao celular – Veja meu exemplo, sou uma mulher de respeito. Vou me casar, mas não vou mudar meu sobrenome. O meu nome é Lafaiete. É francês. É chique. O dele é Silva. Deixa eu com o meu e ele com o dele.

No trem tem muita gente e gente de todo o tipo. Tem gente que trabalha no trem. Vende fone de ouvido, kit kat, bombom garoto, só mercadoria de qualidade. Também tem gente sem casa, tem gente sem comida. Ou será que é mentira?! Lembre-se que ajudar ambulantes é prática ilegal. Ajuda-se um, o próximo o outra pessoa ajuda.

– Minha filha, quem não gosta de ir apertado vai de taxi.

Linha 9 Esmeraldo

Deus te abençoe e boa viagem!

 
sarah adulta eu

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Você se lembra?

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Você se lembra? Era outono quando a gente se conheceu. Aquela época do ano em que conseguimos sair no sol sem achar que vamos nos desafazer no asfalto. Não é uma época particularmente pitoresca por aqui, você já deve ter percebido isso não? Ainda assim, os dias são agradáveis e as frentes frias começam a nos lembrar de que conseguimos sim ter um pequeno inverno. Quando a gente se conheceu fazia um dia lindo lá fora, você se lembra? O sol brilhava gentilmente, mas a brisa do mar não o deixava castigar nossas peles. Não estávamos sozinhos, era realmente um belo dia, tanto pra você quanto pra mim. A noite estava começando a chegar quando eu te vi, e como se uns poucos raios de sol ainda conseguissem escapar do horizonte você se destacou no meio de tanta gente. Você deve ter reparado meu olhar atordoado, porque andou na minha direção e sorriu. Não consigo me lembrar se sorri de volta. De repente, foi como se o tempo andasse ao contrário. Naqueles poucos segundos em que encarei o seu sorriso, o sol brilhou dentro de mim, queimou a minha pele e me fez acreditar que eu nunca veria um inverno novamente.

IMG_0770Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016. 

Você se lembra? Enquanto eu estava ali, nesse estado, você se apresentou e quis saber o meu nome. A gente não deve ter trocado muitas palavras, não acredito que eu fosse capaz de encontrar muitas cada vez que seus olhos encontravam os meus. Não estávamos sozinhos e a vida tem dessas coisas, naquela noite nós sorrimos e andamos em direções opostas.

Como todo ano, aquele inverno não foi diferente. Os dias continuavam claros, mas o nosso corpo precisava de mais proteção. Umas tempestades passaram e, cada um de nós do seu lado da cidade, as observamos e nos afligimos achando que os dias estavam escuros de mais pro nosso gosto.  Mas, você se lembra de como foi rápido? Enquanto ainda buscávamos abrigo da escuridão que nunca chegaria, enquanto as noites pareciam mais compridas do que realmente eram, enquanto levantar da cama era a tarefa mais difícil que poderíamos pensar em executar, a primavera ocupou o ar.

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Tiradentes, Minas Gerais. Agosto, 2014.

Não por acaso a primavera é minha estação preferida. Foi quando a vida cruzou nossos caminhos novamente, e inspirados pelas flores nós conversamos e andamos e discutimos o universo, futuro e presente. Foi na primavera que você segurou a minha mão, você se lembra? Foi ali mesmo, à beira do infinito do mar que eu pedi, a quem quisesse me ouvir, que aquele momento não acabasse. Nunca tivemos uma primavera tão longa. Todas as cores brilhavam mais, as frutas eram mais saborosas e acordar todos os dias não era nada mal. Você se lembra se foram dias, meses ou anos? Eu tento, mas não consigo. Tudo que guardei em mim foram os incontáveis sorrisos, as cores, os gostos.

O verão chegou e, como é comum por aqui, a única diferença foi o calor. A gente tem mania de reclamar disso, ne? Mas aquele deve ter sido o melhor verão das nossas vidas. Tudo se aqueceu, nossos sorrisos, nossos olhares, nossos toques. Não tínhamos nada do que reclamar. Tudo é mais intenso no verão. É aquela estação do ano que nos inspira a acreditar que nada pode dar errado, que as noites não podem durar muito – e que na verdade elas nunca são tão escuras assim.

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Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016.

Um dia, porém, o outono chegou. E, novamente, com seus ventos fortes, ameaçou um inverno terrível. A principio eu não acreditei que isso fosse possível, não depois de duas estações tão quentes, coloridas e felizes. A vida tem dessas coisas não é? Durante alguns minutos só você falou, enquanto eu apertava meu coração com força para que ele não se desfizesse ali na sua frente. Você se lembra? Com um sorriso eu disse que estava bem, você se lembra? Eu me lembro. Você sorriu, se desculpou e foi embora.

17101512_10210042962724389_2113080367_o Iguaba Grande, Rio de Janeiro. Junho, 2016.

O inverno chegou. Contra todas as expectativas, ficou frio e escuro. As noites eram intermináveis, sair na rua e encarar o mundo parecia impossível. O ar era tão pesado que dificultava a respiração, os agasalhos pesavam como se eu carregasse um enorme cachorro preto nas costas. As lágrimas continuavam escondidas, é claro, atrás de um sorriso. Os pesadelos eram constantes, inspirados pela escuridão do mundo e pela violência que começava a assolar nossas ruas.

Uma dessas noites eu sonhei com você. Eu sonhei que sentia seu corpo ao meu lado e que o sol brilhava quente sobre nós. Eu sonhei que aquilo era a realidade, e todo aquele inverno não passava de uma pequena nuvem que cruzava o céu. Sonhei que, se você havia passado pelas mesmas estações que eu, ainda poderia haver esperança. O único defeito de todos os mundos oníricos é que eles tem um fim. Disso você não vai lembrar, mas aquela noite eu acordei e estava deitada no chão. Percebi que todo aquele calor era meu sangue se esvaindo de mim. Quando tentei gritar, a única palavra de que me lembrava era o seu nome. Naquela tarde de outono, ao som melancólico da sua voz, eu apertei meu coração mais forte do que deveria. Durante o inverno, toda a escuridão vinha de dentro e eu não fui capaz de perceber. Sem um coração operante, nosso sangue se perde não é? Não tinha mais seu destino predeterminado, e talvez estivesse tão ruim aqui dentro que ele precisou sair. Enquanto eu tentava me equilibrar em meio aquela poça de sentimentos vermelhos e grudentos, não conseguia mais lembrar do seu sorriso. Quando as lágrimas vieram novamente, alagou o quarto. Naquele desespero de sobreviver, eu duvidei se em algum momento você sequer existiu. Enquanto tudo de mim se esvaziava, eu acreditei que todas as últimas estações haviam sido alucinações de uma mente solitária. Acreditei que você era somente o produto de um cérebro que lia muitos romances.

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“The Gates of Hell” (Rodin). Stanford, Estados Unidos. Janeiro, 2015.

Sem perceber, caí no sono novamente. Quando acordei, finalmente era dia. O quarto estava limpo, assim como meu corpo, que apenas se sentia ressaqueado. Por uns dias eu tentei entender aquela noite. Por uns dias eu tentei sentir alguma coisa, mas não consegui. Aquele inverno parecia cada vez mais interminável, tinha me deixado dormente e fotofóbica. Preferi me resignar à ideia de que você não era real, era um personagem da minha criatividade, e isso doeu. Doeu por mais uns dias enquanto acreditei que nunca mais eu veria o sol.

Ainda era inverno quando meu telefone tocou e eu ouvi a sua voz.

Novamente caí em um desespero sanguinolento, simplesmente por descobrir que era tudo real. Toda felicidade foi real, mas não tanto quanto a dor. Senti a força que a minha própria escuridão conseguia exercer sobre mim. Foi quando percebi que enquanto eu chorava e estremecia, o sol lá fora já estava voltando a cantar. Saí de casa e decidi que precisava sair de mim. Senti uma vontade incontrolável de me jogar em direção a um abismo desconhecido qualquer. Todos aqueles pelos quais eu caí antes pareciam doloridos olhando do chão em que aterrissei, escuros demais, duros demais. Ainda assim, todos eles haviam parecido como um poço dos desejos quando olhados lá de cima. E por alguns momentos da queda a adrenalina fazia tudo parecer mais quente, intenso, levemente insano, mas bom.

17122118_10210042961964370_487306367_oGovernador Celso Ramos, Santa Catarina. Dezembro, 2016. 

Entendi que faria tudo de novo. Entendi que naquele último outono, quando olhamos para o abismo eu me desequilibrei na beirada enquanto você teve medo e preferiu ficar no seu próprio deserto. Me debrucei sobre as duvidas, as inseguranças e toda a escuridão que me assolou durante o inverno. Será que você havia passado pelo mesmo que eu? Não pude aquietar essa duvida e durante a primavera escalei pedra a pedra o abismo de volta até te encontrar. Aquele sorriso que tanto havia me aquecido um dia ainda estava lá, apesar de todos meus questionamento quanto a sua existência.

Eu te perguntei: “Você se lembra?”

Você pegou a minha mão e, sem precisar de uma palavra, nós pulamos. O salto mais sincronizado que o abismo já presenciou em todos os seus milênios de existência. E com os sorrisos coordenados não conseguíamos olhar para baixo, ainda assim nós dois soubemos ali que aquele abismo não tinha chão. Dali, a gente só podia cair para o infinito do universo.

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Vai passar

dragão desenho contos de fadas

Quem conta o ponto aumenta um ponto… E lá vamos nós…

Era uma vez um reino antigo, governado por um rei bondoso, os habitantes eram felizes e solícitos. Nenhum problema parecia impossível de resolver.

reino encantado desenho contos de fadas

Um belo dia o mago chinês fez uma visita ao Rei.

rei mago desenho contos de fadas

O mago havia trazido um presente para o rei, era um livro que continha a toda a sabedoria para resolver qualquer situação.

O rei foi orientado a abrir o livro somente quando estivesse passando o pior e o melhor momento da vida.

livro mágico desenho contos de fadas

Obviamente, um homem do ocidente não teria paciência de esperar que o momento. Então o mago escondeu um livro no subterrâneo e ele somente poderia ser encontrado com o momento certo chegasse.

dragão desenho contos de fadas

Sendo assim, o tempo passou e as coisas mudaram. Como deveria ser. Como sempre é.

penas desenho contos de fadas

Então, um dragão apareceu e transformou tudo, trouxe a destruição.

As pessoas começaram a discordar entre sí. E cada vez estavam menos unidas. Isso fortalecia muito o dragão.

dragão desenho contos de fadas

A amada cidadela, aos poucos, foi sendo destruída. A população tinha tanto medo de sair que começou a passar fome. As necessidades aumentaram , aumentaram. E as brigas também.

cidade desenho contos de fadas

O rei não se lembrou do livro porque, estava tão ansioso, tão estressado. Não dormia bem. Não passava uma noite sem ruminar qual seria a melhor saída.

Um Arquiteto que tentou lhe acalmar com várias dicas. Porém nada parecia que salvaria esse Rei. Ansioso, estressado, intenso.

Então o rei disse: “Ao menos, se o mago tivesse dito onde escondeu aquele livro.”

rei arquiteto desenho contos de fadas

O arquiteto então propôs utilizar uma luneta, que teria a habilidade de encontrar cavernas. O rei relutantemente aceitou a hipótese.

dragão desenho contos de fadas

E a entrada foi avistada.

esconderijo desenho contos de fadas

O rei e o arquiteto caminharam feito loucos até chegar na caverna. E lá estava o livro.

livro mágico desenho contos de fadas

Ao ler a página do pior momento estava escrito: “Isso vai passar”

O Rei não compreendeu. Saiu indignado. Se sentiu enganado. Queria destruir o livro. Porém, o arquiteto o impediu. E Guardou o livro.

Após retornarem ao reino, o arquiteto teve a ideia de construir um balão para retirar todo o povoado e reconstruir a cidade em um lugar mais seguro.

balão desenho contos de fadas

O tempo passou novamente…. Eles viajaram e viajaram… Mudar não foi fácil, mas foi preciso. As coisas demoraram um pouco para se acertar.

folhas desenho contos de fadas

A solução foi construir uma nova cidadela sobre a copa das árvores num país bem distante.

A adaptação não foi fácil. Foi necessário reconstruir todas as casas. Descobrir novas formas de conseguir comida. Mas com o tempo as coisas foram encontrando seu lugar.

Como estava calmo e relaxado, o rei se lembrou do livro e decidiu dar uma segunda chance ao mago e verificar qual era a sabedoria para o melhor momento de sua vida: “Isso também vai passar

cidade desenho contos de fadas

ISSO VAI PASSAR

Bom ou ruim…. As coisas não são estáticas. Então, eu não sei pelo que você está passando – o melhor, o pior – mas a roda gira. E nós faz crescer ou bater com a cara no chão.

Desejo a vocês uma virada de ano FANTÁSTICA! Até ano que vem!

Obs1: O texto foi uma readaptação do texto que li no livro do Bernardinho “Transformando suor em ouro”.

Obs2: Os desenhos foram feitos por mim. Riscados de uma vez sem borracha. São somente fotos. Sem tratamento. Alguns tiveram influencia. Outros não. Espero q tenha agradado. Prometo que para o ano que vem aprendo a editar melhor as imagens.

Obs: Esse não é o último post do ano. Aguarde o post da Clari. Vai ser a continuação do anterior! Não conferiu? Clique aqui
sarah adulta eu

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“Eu tenho um plano”

Adulta, eu?

– Ué, mas não é todo mundo que tem um desses?
– Não um especial como o meu, tão bom. É sério, quando ouvir você também vai achar genial! É a solução de todos os nossos problemas!

– Eu não acredito em soluções prontas. Tentam nos vender isso todos os dias, e você sabe tão bem quanto eu. Pode não ser todo mundo que percebe, mas nós somos diferentes, não é mesmo? A gente teve acesso a uma boa educação, pudemos ver bem como soluções prontas arruinaram grandes sociedades.

– Mas não somos os únicos! Porque então ninguém mais percebe o que tá acontecendo com o mundo?

– O que você acha que está acontecendo com o mundo?

– Um desastre iminente, de proporções tão monumentais que mal consigo achar palavras. Nos vejo andando em direção a um abismo colossal, onde a pouca luz que alcança o fundo apenas chega aos olhos de uns poucos, que não podem mais do que apenas se lamentar pela situação da humanidade. O que eu vejo é tão aterrorizante que na maior parte do tempo meu pensamento se desvia. É mais fácil, eu acho, ignorar que sei disso e fingir que tenho grandes problemas com a bateria do meu celular acabando daqui a 15 minutos e eu ainda tenho que voltar de uber pra casa.

– Eu entendo, também visualizo esse mundo pós-apocalíptico. Cheio de pessoas intolerantes, preenchidas somente por ódio, inveja e resignação. Pra te ser sincero, me deixa bem pra baixo esse papo todo. Tento não me deixar levar por esse tipo de pensamento… como você disse, é mais fácil se concentrar nos nossos grandes pequenos problemas. Aliás, acabou a cerveja gelada.

– Mas o meu plano é genial por isso, acho que temos uma chance enquanto humanidade.

– Vai resolver o problema da cerveja gelada e da bateria do celular?

– Estúpido, me escuta. Se a gente chegar nesse nível de sociedade que eu planejo, só nos sobrarão esses problemas inventados. E vamos poder olhar pra eles, xingar um pouco as ironias do universo e seguir em frente, PLENOS, independente dos acessórios externos. E você sabe que quando eu falo de plenitude nada tem a ver com religião ou espiritualidade, né? Por enquanto é só um sentimento que eu imagino, e assim como seria difícil descrever a alegria ou a tristeza para alguém que nunca vivenciou isso, é difícil pra mim achar as palavras agora. Ao invés de palavras, pensa na sensação que essas coisas te trazem olha: calma, felicidade, uma noite bem dormida. Sabe? Consegue imaginar também?

– Pra mim é só imaginação também. Mas acho que entendi o que você quer dizer. E esse plano, tô curioso para admirar sua genialidade.

– Não ri de mim! Promete?

– Prometo.

– Eu sei que vai parecer ingênuo, quase platônico… mas promete que não vai rir de mim?

– Claro. As melhores ideias são as inocentes, que conseguem ser mais objetivas ao abordar um problema, por incrível que pareça. Um exemplo é só fazer qualquer pergunta pra uma criança; como aquele caso que você me contou uma vez. Não me lembro filho de quem, ou sobrinho de quem, mas que ao ser apresentado a famosa lei “Dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo” imediatamente perguntou “Mas e as grávidas?”

– Pode até ser, mas por outro lado, ele não refutou nenhuma lei da física né? Era só uma questão de compreensão do conceito certo etc etc.

– Ainda assim, as respostas inesperadas, diretas e espontâneas são aquelas que a gente guarda. Alguém já falou em algum momento da história que as soluções mais simples são geralmente as corretas. E aliás, alguém já deve ter falado também, que clichês só se tornam clichês porque dizem a verdade.

– Bem, meu plano então. Acho que tudo se resume a liberdade. Liberdade de expressão, liberdade econômica, liberdade para que cada um alcance o lugar onde quer chegar. Acrescentaria também que fosse obrigatório que todos optassem por pelo menos um método para o auto-conhecimento, sabe? Pra identificar melhor suas características e terem uma expectativa boa do que querem e podem alcançar. Parece que grande parte dos nossos problemas hoje são as expectativas irreais que…

– Antes que você continue, é claro que a gente tá falando de um mundo mágico onde todo mundo sente empatia né?

– Eu acredito que todos sentem empatia. É um sentimento humano como qualquer outro. Algumas pessoas só preferem ignorar esse zumbido chato que vem lá do fundo porque é mais confortável, é mais fácil se sentir melhor consigo mesmo quando você pisa por cima de alguém. Aí, é só abafar o zumbido com bastante post de facebook.

– Ainda assim, esse plano só funciona se todos concordarem em segui-lo né? Não adianta eu e você mudarmos agora porque estamos inseridos em uma sociedade que não é assim.

– É. Sobre a propagação do plano é que eu tive uns problemas. Continuo achando ele genial, mas admito que não é perfeito. Produto de uma epifania, que por sua vez é produto de uma cabeça que não consegue ficar vazia por um milissegundo. Você pode dizer que não, mas você sabe bem como é.

– Infelizmente sei sim.

– Bem, a alternativa número 1 envolve eu como governante absoluta do planeta. Assim, poderia mandar todo mundo se comportar do jeito que eu acho que deve. Eu entendo que tenho problemas práticos de como chegar lá, mas ainda é minha opção número 1. Ainda sonho que um dia vou fazer um pedido a noite, antes de dormir, e de manhã vejo tudo realizado. É, nesse caso, dá pra seguir com o plano mas admito que é minimamente improvável. Não me olha com essa cara, eu continuo achando que é a melhor opção. Se eu conseguisse fazer todo mundo pensar como eu, o mundo seria um lugar melhor. Daí derivou minha alternativa número 2: convencer todo mundo que eu alcanço, todo mundo que puder me ouvir. Conversar de verdade, debater problemas e apresentar meu jeito de pensar. Todo mundo que for minimamente esperto tem que concordar comigo. Você não acha?

– E você não vê nada de levemente perigoso nesse seu discurso?

– Confesso que pode soar meio ditatorial… mas você me conhece, sabe que as minhas intenções são as melhores possíveis. Eu realmente acredito que se todo mundo pensasse igual a mim o mundo seria um lugar melhor.

– Um monte de gente já pensou isso antes, um monte de gente já conseguiu chegar nessa posição de obrigar uma sociedade a agir como eles achavam melhor. Alguma vez deu certo? Eu sei que suas intenções são boas, você é uma pessoa incrível e inteligente, mas nesse caso você só está repetindo esses mesmos comportamentos que você tanto critica. Você vai pro outro lado no quesito de opinião, mas tem o mesmo discurso intolerante de todo mundo que você mesma julga culpado hoje por esse futuro louco que estávamos descrevendo. Percebe? Você realmente acredita, do fundo do seu ser, que você é uma pessoa completa? Ou tem ainda algum espaço pra crescer?

– Acho que sim, ninguém nunca fica “pronto”…

– Enquanto você tiver espaço pra crescer suas opiniões vão mudar, vão se aprimorar. Sua visão de mundo pode ficar mais apurada, mesmo quando você acredita que já vê tudo claramente. Enquanto você admitir que pode ser imperfeita seu plano não vai ser bom o suficiente pra todo mundo. Você não gosta de conversar? Porque iria acabar com isso?! Justamente o lado bom da conversa que é a troca de ideias, iria acabar com o seu plano. Nunca se coloque numa posição que você ache que é absoluta, porque ela será e isso não é uma coisa boa. O mundo está cheio de pessoas absolutistas, e eu acredito que esse é o caminho mais rápido para o abismo. Radicalismo de qualquer lado é radicalismo.

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*caso não tenha ficado claro, esse é um texto fictício. Não ouso chamar de outra coisa se não só umas coisas anotadas num “pedaço de papel”, mal é um texto na verdade. Só achei que devia ir pro mundo, e assim nasce uma nova categoria aqui que será alimentada eventualmente.

 

 

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