Minha colcha de retalhos

Nicole

A memória nunca foi minha grande aliada, porém, recordo sempre do dia em que, aos prantos, fui consolada porque não gostaria de fazer oito anos, não queria crescer

Vinte anos depois, a memória continua não sendo meu forte, enquanto a percepção das coisas e o hábito de fazer (muitas) análises sempre o foram… Torturando, inúmeras vezes, mente e coração, mesmo quando infantis.

O pavor de crescer era muito maior que o simples desejo de ser Peter Pan e brincar para sempre; enraizava-se no medo de não conseguir ser capaz de fazer tudo que meus pais faziam, pagar por todas as despesas que os observava tendo comigo e meu irmão. Em partes, as raízes desse medo permanecem vivas…

Tornar-me adulta e me perceber como tal foi, muito além de um momento, um processo. Longo, por vezes doloroso, mas imensamente gratificante e do qual jamais retocaria uma experiência sequer.

O primeiro passo foi, definitivamente, a entrada na universidade e a consequente mudança para Niterói. A cidade natal de menos de 200 mil habitantes, o familiar colégio onde estudei por treze anos, o quarto repleto de roupinhas lavadas pela mamãe foram substituídos pela Universidade Federal Fluminense – um universo complexo naqueles meses iniciais -, por um beliche no quarto dividido, por semestres sem nenhum amigo na cidade onde eu era forasteira. Mas o caminho não foi de todo amargo comigo; o primeiro semestre foi tranquilo, a cidade era mais caminhável que eu imaginava, o mercado bem próximo…

Depois, mudei-me cinco vezes. Em cada república, uma história… De chegar de férias e ver todas as minhas coisas embaladas no meio da sala, com todo o apartamento em obras, até realizar mudança com amigos carregando meu colchão nas costas, de ter um rato gigante na república mais imunda já vista (e única com vagas), a morar com oito mulheres em uma casa de apenas um banheiro e normas – muito – rígidas. Até, enfim, descobrir a delícia de compartilhar um quarto, um chá, de acordar de madrugada para fazer festa surpresa para a amiga de república, de aprender a partilhar – bolo, conflitos, viradas de noite -, tolerar, respeitar o espaço do outro… E viver verdadeiros encontros de almas; construir amizades profundas e maduras durante cafés na mesa da cozinha comum.

Após tantas mudanças, dos estágios, e de todas as experiências que expandem nosso horizonte e evidenciam que, bem, nem o mundo é tão grande assim, consegui uma bolsa de intercâmbio e fui, com mala, medos e um francês mequetrefe, viver um divisor de águas na minha vida, não sem antes uma pequena saga… A novela mexicana começou quando meu visto levou seis meses a mais que o esperado para ser aprovado, sendo necessária consulta médica para mostrar que, sim, eu viveria bem os 14 meses no Canadá… Cancelei e adiei três vezes a passagem de avião, paguei dois meses de aluguel, tranquei a faculdade – pois não tinha mais matérias a cursar – e voltei para minha cidade natal, sem nenhuma perspectiva. O visto chegou vinte dias antes do outro semestre começar… Ainda assim, cheguei a ir ao aeroporto, não embarcar e adiar a passagem mais dez dias… Este tempo, onde tudo parecia dar errado, foi a maior lição que quase nada depende exclusivamente de nós. O estômago gritou, a ansiedade me fez refém, e os quase dez meses de espera deixaram a certeza que devo fazer o que está ao meu alcance, mudar o que pode ser modificado, mas aceitar aquilo em que não posso interferir.
Nicole
Ultrapassada a fase de incertezas e esperas, vivi alguns dos melhores meses da minha vida. Montreal me proporcionou o mais profundo mergulho em mim mesma – a distância de tudo que me era conhecido facilitou o processo de compreensão de quem sou; o que estimo, o que não tem valor e não merece minha energia. A experiência de viver em um lugar onde o que julgava ser impossível existe, onde a gentileza é constante, onde as ruas têm balanços musicais e pianos públicos acendeu esperanças de dias melhores. Além disso, não havia por perto mãe que pudesse ajudar pregando, sequer, um botão… Se nas repúblicas aprendi a lavar copos, o banheiro, e cozinhar macarrão, no inverno rigoroso aprendi a cuidar de todas as tarefas que meu viver abarca, das menores às mais chatas, como andar pela neve com (muita) roupa suja para a lavanderia. Há, porém, um pequeno prazer escondido nestas coisas triviais… Só quem deitou cansado depois de uma faxina sabe o prazer que o cheiro do desinfetante no piso proporciona!
Nicole
Na cidade tão distante das praias de minha cidade natal, percebi-me responsável por mim mesma, em cada minúcia, descobri um momento de aquietar minha mente na execução das tarefas domésticas, dividi trabalhos e almoços com amigos e tive ainda mais certeza que partilhar é mágicotorna leve o que faz sofrer, multiplica as alegrias… Voltei com o coração cheio de saudades, a cabecinha cheia de referências arquitetônicas, o caderninho repleto de receitas, e os dias, sempre, preenchidos com a companhia dos amigos-irmãos que lá encontrei.
Nicole
Hoje, aos quase vinte oito anos, compreendo o amadurecer como esta fase única e decisiva onde ressignificamos nosso mundo… Alocando cada coisa (e pessoa) em seu devido lugar, estabelecendo nosso horizonte de sentidos, reescrevendo os sonhos infantis e readequando as metas, nos lapidando, a cada instante, como o ser único que somos: compreendendo o que faz parte de nós e o que nos impuseram, aprendendo a nos escutar e nos acolher, aceitando que há coisas que precisamos, enfim, fazer e outras tantas que não somos obrigados a tolerar.
O início da vida adulta é a lindíssima trajetória onde cada dia é uma busca pela independência e liberdade, onde nos deparamos com todas os retalhos de nossa vida até então e, pela primeira vez, sem tutores ou quem decida por nós, tramamos nossa colcha de sentidos, eliminando o que não deve permanecer, priorizando o que nos faz bem e nos constrói, adicionando o que encontramos de novo pelo mundo e toca nossos corações.

Ainda que seja confuso e doloroso romper alguns padrões, com os quais vivemos desde que nos recordamos, perceber-se autor de sua própria história é, não somente maravilhoso, como a melhor forma de se alegrar ao enxergar no espelho, vinte anos depois, a mulher que celebra seus vinte e oito anos. E não chora mais por isso… E se ama por ser quem lutou para ser; onde cada retalho de sua colcha está exatamente no local que decidiu costurar.

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6 Comments

  1. Parabéns Nic! (:
    Pela nova oportunidade abraçada, pelo texto recheado de carinho e pelo sucesso que você vai fazer hahaha !

    Se cuida,
    ganhei mais um blog pra acompanhar pelo visto ! 😀

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