Olhar para dentro: por que não?

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A minha geração, fim dos anos 80/início dos anos 90, é a geração das promessas. Fomos nos desenvolvendo como profissionais em um mundo de franco crescimento – plenitude de empregos, oportunidades, o Brasil despontando como o país do futuro. O tempo passou, fomos para faculdade , nos formamos e a conjuntura mudou. Da euforia ao estado de crise. Da abundância à austeridade. Sempre fui uma pessoa de planos, virginiana de sol, lua, mercúrio e virgem.
Quando me formei oficialmente, em abril de 2014, percebi, entretanto, que meus planos não se encaixavam mais no mundo real. Não só isso: percebi que enfrentava tantos conflitos internos que tudo que eu havia traçado para o meu futuro não teria como se concretizar.
Enfrentei um período de depressão e bulimia muito difícil. Confusões familiares constantes. Por algum tempo me vi perdida, sem vontade de recolocar a minha vida nos eixos. Não via saída para os problemas mais simples e reclamava de tudo. Até esse estado emocional me levou a ficar realmente doente – graças à bulimia, tive um problema renal gravíssimo, que me levou à internação por dez dias e me impossibilitou de fazer uma prova para qual eu havia estudado por quase oito meses.
Esse foi o turnpoint para uma mudança que não foi planejada e que eu não tinha concretude da sua dimensão. Decidi que queria mudar tudo de vez e de uma só vez. Comecei a reestruturar meu currículo, procurar oportunidades de emprego. Aceitei a terapia como uma oportunidade de melhorar. Aprendi a deixar ir e me desapegar do que me fizesse mal, ainda que isso representasse afastar amigos. E também aprendi a valorizar quem realmente se importava. As coisas fluíram de modo que consegui um novo emprego e, graças a isso, acabei de tendo que me mudar.
No início não foi fácil. Do conforto da minha casa, fui para uma República, morando com diversas pessoas, aprendendo a dividir desde o banheiro à rotina. Afinal, o salário de um recém-formado não permitia luxos. Troquei o chopp de sexta pela marmita da semana. Troquei a blusa nova por produto de limpeza. Vivi um bom tempo na base de trocas, na base do frio na barriga, na base do lápis, papel e calculadora. Aprendi a importância de valorizar a comida, valorizar o custo das coisas, valorizar o tempo. E mais ainda: aprendi a me ouvir primeiro antes de ouvir os outros. Isso acabou me fazendo aprender a aceitar também estar sozinha (logo eu, que sempre fui tão rodeada de gente).
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Hoje eu já mudei de emprego de novo, já estou em outra casa e a vida financeira está mais calma. Graças às economias e aos extras, consigo juntar dinheiro para poder viajar nas férias e pude realizar o sonho de adotar um cachorro, que hoje alegra a volta do trabalho de segunda a sexta e me ensina a compartilhar amor.

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Faço minhas concessões todos os dias, toda semana, o que é difícil, mas sei reconhecer que vale a pena (faz mais de sete meses que não vou para uma festa, por exemplo; quase não peço comida e sempre estou vendendo e comprando roupas usadas). As mudanças sempre nos provocam sentimentos variados, não necessariamente prazerosos, eu confesso.

A exaustão de todo esse processo me fez ficar afastada de diversos amigos – alguns por opção, outros por conta do corre-corre mesmo. Aliás, esse talvez tenha sido o maior aprendizado dentre tantos: deixar ir. Não precisamos ouvir críticas a todo tempo nem que as pessoas interfiram na nossa vida de um modo que nos machuque. Aprender a dizer não é um dos primeiros passos para aprender a dizer sim para si mesmo, priorizar as suas vontades em detrimento dos outros. Não dói e eu recomendo.

“Mas Ana Luíza, o que mais você quer?”. Não é fácil não estar no lugar que planejamos no passado. Não é fácil ver que nem tudo funciona exatamente como queremos. Não é fácil trabalhar tanto todo dia, fim de semana e ver que você já (realmente) não é tão jovem assim. E ao mesmo tempo se sentir jovem o suficiente, com vontade de largar tudo para ir viver de qualquer loucura pelo mundo. Não é fácil entender que o seu ritmo de vida e as suas escolhas não necessariamente serão as mesmas de outras pessoas da sua idade – ou ainda que sejam, o resultado nem sempre é o mesmo. Cada pessoa é diferente, cada pessoa tem a sua própria trajetória. O nosso termômetro não deve ser a vida do outro, mas deve ser a nossa vontade (e por que não a nossa sorte?). Aprendi a parar de me comparar aos outros, na medida do possível. O autoconhecimento dos últimos três anos foi e tem sido essencial para tentar compreender o momento que estou e para onde pretendo ir.
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Se sou feliz, acho que só a Ana de alguns anos vai poder dizer. Sei que continuo caminhando, aprendendo sempre a olhar para dentro antes de olhar para os lados. E, especialmente, descobrindo várias Anas que eu nem sabia que existiam aqui dentro.
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