Resenha: Paddy Clarke Ha Ha Ha

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Há 3 meses estou participando de um clube do livro que se chama TAG experiências literárias. Todo mês um curador indica um livro e esse livro é encaminhado para os associados com um encarte que conta curiosidades do autor e da história. Descobri o clube através do Skoob (que é uma rede social para leitores). E tenho me surpreendido de maravilhosamente todos os meses.
Especialmente, o livro do mês de setembro indicado pela Maria Rita Kehl me marcou bastante. A começar pelo encarte:
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A um só tempo para ser amoroso e responsável” Essa frase é muito real para mim. Cresci em uma família desestruturada, um pai alcoólatra ausente e uma mãe bipolar completamente instável. Hoje, percebo que a família é um termo relativo, não se refere necessariamente ao sangue, é bastante importânte na infância e a importância se torna relativa na vida adulta.
Roddy Doyle escreveu o “Paddy Clarke Há Há Há” logo após o nascimento do seu filho. E quando eu acabei de ler eu só conseguia pensar “como ele teve coragem de ser pai tendo essa super consciência de todo aquele universo fantástico, confuso, e muitas vezes, mau em que as crianças vivem”. Como será que Paddy influenciou na paternidade do autor?
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Foto do encarte que veio com o livro – trechos retirados do livro “a casa das estrelas”

Nesse post não tem “spoiler” do livro. Acho que essa é a minha postagem mais pessoal. Eu aproveitei uma tarde mineira chuvosa e um momento de vida melancólico-criativo para dar voz aos sentimentos que permaneceram em mim após a leitura.

Transcrevi alguns trechos do livro que grifei. Gostaria de ressaltar apenas, que eles não refletem em sua totalidade a minha experiência quando infantil. talvez, o livro tenha me levado a focar muito na separação dos meus pais, e por isso não escrevi tanto a respeito das minhas traquinagens. Ou então, eu não tenha querido me prolongar tanto assim no post.

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Foto da capa do livro

  • “Sempre me perguntava se era pecado fazer hóstias. Achava que não. Uma das hóstias que deixei na janela ficou embolorada. Agora isso era pecado: Deixar as hóstias embolorarem.”: Religião sempre foi um problema para mim. Minha avó materna era católica, meu pai era espirita, minha mãe era tudo e mais um pouco – dependia de que meio “Deus” ia responder mais rápido. Eu estudei em colégio católico e fiz 4 anos de catequese no interior de Minas. Eu não sabia muito bem o que era pecado. Morria de medo do demônio. Não assisto filmes de terror.

 

  • “Papai cantava a musica do Batman; ele era assim, maluco as vezes, mas muito engraçado.”: Eu amava meu pai, completamente louca por ele. Lembro que ele me chamava de “zoca” que era o complementar ao nome dos meus gatos: zaca, zeca, zica (mamãe gata) e zuca. Essa é a melhor lembrança que tenho dele. O meu pai era meio doidão, era pouco presente e foi ficando cada vez menos presente. Hoje eu não participo mais da vida do meu pai.

 

  • “A primeira briga tinha terminado. Papai ganhou porque fez mamãe chorar. Acabou e pronto; tudo voltou ao normal, mas melhor que antes.”: Os meus pais brigavam muito. Mas não como os pais de Paddy. Era pior. Me lembro do meu pai trazendo facas pro quarto. Quem tirou as facas da mão dele foi o meu irmão, acho que ele tinha uns 5 ou 6 anos. Lembro de pegar a mãozinha dele no dia seguinte e pensar naquela mão bem pequenininha. Eu amo a existência do meu irmão.

 

  • Havia um cheiro bom da mamãe, da comida e de sabão”: Eu me lembro do cheiro da minha mãe quando ela chegava da faculdade de noite. Eu gostava daquele cheiro.

 

  • “Ele não podia simplesmente me dar a medalha. Tinha que fazer um comentário maldoso.”: A família do meu pai estimulava a competição entre os primos. Mas nós sempre soubemos quem eram os favoritos. Eu era aluna exemplar, mesmo assim não escapava dos comentários maldosos na mesa de domingo. A minha mãe ficava muito brava com eles. Hoje eu não tenho vontade de conviver com esses tios e com minha avó.

 

  • Não era justo o jeito que fazia a gente chorar antes de mudar de ideia e fazer o que a gente queria que fizesse.”: Chantagem emocional. Eu me lembro que depois que meus pais se separaram, eu mudei para o Rio de Janeiro. Meu pai não visitava. A família dele também não. Mas eu chorava implorando minha mãe deixar eu vir para Minas. Era um tormento. Era um cabo de guerra.

 

  • Estavam todos lá e eu não gostava deles. Me sentia completamente só.”: Resume bem a sensação que eu tinha nos almoços de domingo na casa da minha avó paterna.

 

  • “As vezes, quando a gente pensa em alguma coisa tentando entende-la, a resposta se abre sem a gente esperar, como uma luz esponjosa e suave, e aí a gente entende, faz sentido para sempre. (…) Não acontecia agora, porém. Podia pensar e pensar e penar e me concentrar e nada vinha.”: Mais tarde a situação de casa piorou. Minha mãe foi se tornando cada vez mais agressiva. Meu pai foi se tornando cada vez mais ausente. Após o pior natal da minha vida, denunciei os dois no conselho tutelar. Levei meu irmão para fazer exame de corpo delito. E todos tiveram que responder na justiça. Minha mãe foi obrigada a se tratar e meu pai a pagar a pensão atrasada e a justificar a falta das visitas e a negligencia.

 

  • “Queria fugir para meter medo neles, fazê-los se sentirem culpados, faze-los se reaproximarem. Ela iria chorar e ele a consolaria com abraços.”: Nada do que fiz pode transformar meus pais em pessoas amorosas. Porém me ajudou a ser alguém. Hoje com 27 anos, aceito que as pessoas são como são. E determinei que minhas as carências infantis precisam ficar na infância.

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Foto da caixinha da TAG (sempre um mimo)

Agradeço ao Patrick por me lembrar como funciona a mente infantil. Não existe, probleminha e problemão, existem problemas. Agradeço por me lembrar que irmãos absorvem e amadurecem de formas diferentes mesmo recebendo os mesmo insumos. Agradeço por me sensibilizar e fortalecer.

Eu não chorei no final do livro. Acho que já chorei o que poderia pela Sarinha. Apenas me preocupei com Patrick e Francis (seu irmãozinho) como fossem meus irmãos, eu quis salva-los, como eu gostaria de ter sido salva. Gosto de imaginar que eles se tornaram grandes adultos e que construíram famílias felizes.
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Trecho retirado do livro “vermelho e o negro” de Stendhal indicação do luiz ruffato de Junho

Obs.1: Ao amigo que teve paciência de ler até aqui.
Obs.2: Obrigada TAG pelo maravilhoso livro!
Obs.3: Se algum amigo quiser me dar de aniversário “a casa das estrelas”, eu vou amar!Image and video hosting by TinyPic

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4 Comments

  1. recebi o livro e pelo que li a respeito parece ser um excelente livro!!
    Gostei dos comentários também parabéns por compartilhar experiências tão pessoais!!!

    1. Obrigada por ter lido, Arlinda! Ultimamente procuro superar meus demônios através do desenho, da escrita, da leitura! Acho a TAG maravilhosa!

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