Sobre gostar do espaço, de física, de ciência

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Adoro dizer que sou cientista. E falo com muito, muito orgulho. Apesar de seguir minha carreira na área biomédica, nutro um grande interesse paralelo pela física, pelo espaço e pelo conceito de tempo. Aliás, tem alguém que não se admire com as impossibilidades da vida?

No fim do ano passado eu li “Uma breve história do tempo”, do Stephen Hawking, e a Sarah já deu uma aula aqui. Enrolei e enrolei para escrever porque eram tantas coisas que valiam ser mencionadas… Escolhi uma para agora (e prometo que não vai ser repetitivo). Preciso falar sobre ciência, e sobre sua popularização.

Não só um grande físico – absolutamente brilhante –, Stephen Hawking também é um nome de peso na popularização da ciência. Seus livros alcançam milhares de pessoas e com uma linguagem acessível a qualquer curioso, apesar dos temas densos. Mais especificamente em Uma Breve História do Tempo, aprendi mais sobre astrofísica do que jamais na minha vida. E não só isso, um dos principais motivos para eu achar esse livro tão incrível é a visão de história da ciência que ele contém. O próprio nome já dá a dica, mas se alguém não pegou de primeira (como eu, antes de ler o dito cujo), todo o livro relata como o entendimento sobre o tempo evoluiu… ao longo do tempo.

Muito mais do que jogar conceitos na nossa cara – como as escolas normalmente fazem, acho que o melhor jeito de criar interesse pela ciência é contando um pouco de como as coisas foram descobertas. E isso não se restringe à física, o entendimento sobre os diferentes papéis das áreas do cérebro por exemplo, é facilmente compreendido quando se conta sobre o Sr. Leborgne ou o paciente H.M. (Sim, essa sou eu claramente puxando a sardinha pro meu lado)

Voltando pra física e, mais especificamente para a astrofísica – como é o foco do livro de Hawking, tem uma história que eu acho particularmente curiosa e interessante: Tycho Brahe. Vejam o vídeo abaixo e digam se não seria muito mais interessante aprender assim na escola. O nome pode não soar familiar para muita gente, mas foi graças ao trabalho dele que Johannes Kepler pôde desenvolver seus estudos que acabariam por descrever os movimentos dos planetas.

Não se assustem, o vídeo tem legenda em português. É só ativar, caso não apareça direto.

Observação pertinente: acho particularmente interessante como tanto conhecimento foi acumulado em épocas sem tecnologias digitais. Sempre me deixa embasbacada.

Muitas outras iniciativas para a popularização da física e da ciência merecem ser mencionadas, mas vou me restringir a três delas:

1. Cosmos

STS-125 Atlantis Solar Transit (200905120002HQ)

Atlantis space shuttle, 2009. Créditos: Nasa/Thierry Legault

Provavelmente a iniciativa mais conhecida do mundo, iniciada por Carl Sagan, ganhou recentemente uma versão apresentada por Neil deGrasse Tyson – que está no Netfilx!!! Um episódio que me vem a cabeça agora e que se relaciona bem com o início do livro de Hawking é o episódio 7 da primeira temporada, que conta a história da descoberta que tornou possível calcular a idade da Terra. Como eu disse, eu acho incrível aprender ciência através da história, e essa séria reflete muito bem essa ideia. Esse episódio em particular conta como, a partir das datas mencionadas na Bíblia, alguém fez o primeiro cálculo da idade do planeta e chegou a uma conclusão comicamente “exata”, com hora e tudo. Como os episódios não tem uma ordem muito necessária, podem pular direto só pros temas que forem de interesse. Esse episódio também pode ser visto no YouTube.

2. Nerdologia

Uma das iniciativas brasileiras de maior visibilidade, o canal tem um foco nos princípios científicos relacionados (ou não) à cultura pop e de ficção científica. Apesar de ele ser “Átila, o biólogo”, o canal aborda uma variedade incrível de temas com uma linguagem bem simples mas que não se torna errada. Acho que uma das maiores dificuldades que os cientistas e jornalistas enfrentam para explicar ciência para o público geral é tornar a linguagem acessível, sem termos técnicos ou necessidade de muito conhecimento prévio, e ainda não simplificar demais ao ponto de que os conceitos passem a estar levemente errados e passíveis de múltiplas interpretações. Variando agora para o tema de comportamento da luz, esse episódio bem legal (e que conta a pesquisa de uma física brasileira!).

3. Leopoldo de Meis

Até hoje esse é o nome que se encontra na porta do meu laboratório, apesar de já ter passado mais de dois anos do seu falecimento. Não posso falar de divulgação científica no Brasil sem mencionar o fundador do instituto no qual faço mestrado hoje. Leopoldo de Meis teve um grande papel na pesquisa em metabolismo energético e deve ser um dos brasileiros que mais chegou perto de uma indicação ao Nobel, mas seu legado se estendeu muito mais do que isso. Ele escreveu livros e gravou filmes, sempre tendo como alvo o publico escolar, e criou a Rede Nacional de Educação e Ciência, para levar suas iniciativas de Cursos de Férias para todo o país. Aqui na UFRJ, o projeto se mantém ativo desde os anos 80 com duas edições anuais, nas quais recebemos nos laboratórios do IBqM alunos e professores do Ensino Médio. Hoje o curso ocorre ao longo de uma semana, na qual os participantes podem propor as perguntas que querem responder, planejar os experimentos e executá-los, levantando ou comprovando hipóteses através da aplicação do método científico. Tive a sorte de ser monitora de um desses cursos em janeiro agora e foi mágico ver a ciência despertando nos olhos de gente brilhante mas que tem poucas oportunidades. Vale dizer que a participação desses alunos pode continuar ao longo de um ano desenvolvendo projetos científicos inovadores, muito além daquela curiosidade inicial.

No YouTube tem esse vídeo, que está dividido em 3 partes, mas essa contém o trecho que mais marcou o que seria o início da minha carreira científica quando vi ele próprio apresentar ao instituto que hoje leva seu nome. A quantidade de conhecimento científico que geramos hoje é muito maior do que qualquer pessoa consegue acompanhar, e sobre isso dá pra eu ficar horas conversando. Na verdade só agora enquanto escrevo me dei conta, mas isso meio que acabou se tornando o tema da minha pesquisa.

Acho que já tem bastante material interessante aqui, e já divaguei um bocado também. Acho que vou gostar de escrever mais sobre ciência por aqui.

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4 Comments

  1. Acho muito engraçado pensar em você como cientista kkkk
    pq me vem exatamente a imagem do primeiro video na cabeça, do cara de jaleco, sozinho no laboratorio auieauiua

  2. Clari, amei o texto especialmente o ultimo trecho com o professor da UFRJ. Acho que certamente deveremos escrever mais sobre o ciência!

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