Cérebro, tumores, sentimento e amigdala cortical

chupa essa laranja

Primeiro, um causo…

O jovem e bem sucedido advogado Elliot descobriu um tumor do tamanho de uma laranja atrás da testa. Felizmente, uma cirurgia foi capaz de resolver o problema. No entanto, as pessoas intimas a ele afirmaram que sua personalidade havia mudado. Ele passou a empregar seu tempo de maneira infrutífera, perdia-se em detalhes sem importância, parecia que ele não tinha mais senso de prioridade e era indiferente quando alguém chamava sua atenção. Em pouco tempo, Elliot deixou de ser um bem-sucedido advogado empresarial, para mal conseguir se manter empregado. Acabou com suas economias, sua esposa o deixou, perdeu a casa e acabou indo morar num quarto vago na casa do irmão.

Após uma série de exames, o médico neurologista Antônio Damasio percebeu que embora não houvesse nenhum problema de raciocínio lógico, na memória, na atenção ou qualquer outra capacidade cognitiva, Elliot havia se tornado praticamente indiferente, apático, as coisas que lhe aconteciam. Inclusive, era capaz de falar sobre fatos trágicos ocorridos em sua vida com total frieza.

Após uma investigação extensa, Damásio concluiu que durante a remoção do tumor,  varias ligações entre os centros inferiores do cérebro emocional (a amigdala cortical e os circuitos relacionados), e as capacidades de pensar do neocórtex foram rompidas. Ou seja, Elliot passou a pensar como um computador: Ele era capaz de executar todas as etapas, mas incapaz de atribuir pesos as diferentes possibilidades. Qualquer solução era neutra para ele.

Conclusão: a reduzidíssima consciência dos próprios sentimentos tornou falho o raciocínio de Elliot. Sem consciência de seus próprios sentimentos, ele não tinha preferencias. Chegando ao ápice de Elliot ser incapaz de marcar um horário de consulta.

Essa historia trágica parece ser uma anedota, mas não é. O neurologista Damásio publica o livro em 1994 chamado “O erro de descartes: Emoção, razão e o cérebro humano“. E atualmente é citado em diversos artigos científicos e livros.

Mas, qual é a importância disso para nós?

O ser humano vive em função da dualidade de suas mentes, ou seja, somos intuitivos e analíticos. A mente intuitiva possui forte vontade própria, e, muitas vezes, tal desejo não é racional (não confundir com irracional). E a mente analítica, gosta de estabelecer e cumprir regras, uma espécie de “camisa de força” mental que limita abusos, mas ao mesmo tempo inibe o potencial da mente intuitiva, sobre tudo em ambientes de trabalho. E cada ser humano é uma mistura dessas duas, exceto nosso amigo Elliot.

Nós, homo sapiens, ou seja, “homem sábio”, nos orgulhamos de nossa capacidade única de sermos racionais – quando, na verdade, não é exatamente isso que somos. Na verdade, as mentes analítica e intuitiva trabalham juntas, ou disputam atenção e o controle dos pensamentos, sentimentos e ações. Porém, hoje temos uma informação a mais, graças ao Dr. Damasio e a condição de Elliot, quem toma as rédeas das decisões é a mente intuitiva, ou seja, nossas decisões são sempre tomadas pelo lado emocional.

Afinal, como iriamos escolher onde morar, com quem casar, quem demitir, se devemos ou não aceitar um emprego, ou, até mesmo, em que investir?

Voltamos ao dilema: Caso ou compro uma bicicleta.

Sempre que leio esses assuntos me pego refletindo na minha vida. A minha mãe costuma me perguntar: “Sarah, você não disse que ia estudar? Então porque você está lendo um romance?”, “Sarah, você não disse que ia projetar? Então, porque você está desenhando?”.  Simplesmente, eu consigo estudar por mais tempo, se antes eu ler um capitulo de algum romance. Do mesmo jeito que eu projeto melhor quando dedico uns 3o minutos a desenhar ou pintar algo que está na minha cabeça. Porém, na cabeça da minha mãe, estou perdendo tempo produtivo.

Na verdade, foi a experiência (tentativa e erro) que me ensinou como eu estudo melhor, ou como eu crio melhor. E é assim com todos os seres humanos. Qualquer um que precise tomar decisões precisa aprender a distinguir a informação relevante daquela insignificativa, o que facilita muito o processamento paralelo dos dados. Interpretação de texto ou de contexto?

A verdade é: Fazer boas avaliações intuitivas em situações complexas e com um pouco tempo exige que consiga obter simultaneamente uma quantidade significava de informações. Os seres humanos, em geral, têm aversão a incerteza. Porém, verdade seja dita, nunca saberemos com certeza como as coisas se desenrolarão, pois enquanto os acontecimentos se desenrolam, as circunstancias mudam. Nem sempre há realmente uma única resposta, certa ou errada. E frustrações a parte, a complexa e habilidosa interação entre o sentimento (da mente intuitiva) e o pensamento (da mente analítica) é a abordagem inteligente da intuição.

Qual é o problema da intuição?

O problema da intuição é que difícil justificar para alguém os “porquês”. Pois, assim como para mim faz todo o sentido começar a estudar através da leitura de um romance, para minha mãe não faz nenhum sentido. O que quero dizer com isso? Intuição é uma experiência pessoal, que não é facilmente explicável. Porque essa área do cérebro se comunica conosco através dos sentimentos que nem sempre são traduzíveis em palavras.

Agora gostaria de propor um exercício: Benjamin Franklin, se baseia numa espécie de “álgebra moral ou preventiva” cujo o ponto forte é a mente analítica, ele escreve o trecho abaixo para seu sobrinho Joseph Priestly em 1772:

“Pegue uma folha de papel e anote na parte superior algo que o preocupa. Divida o resto do espaço em duas colunas, nas quais, posteriormente, anotará os prós e os contras. Reflita por três ou quatro dias sobre o problema e então faça uma lista completa dos pontos positivos e negativos da sua decisão. Depois, liste-os na folha reservada e releia-os. Sempre que um pró for equivalente a um contra, risque ambos. O que restar no final do balanço será a melhor resposta.”

Parece ótimo e perfeitamente racional. Porém, procure propor uma situação que lhe pareça difícil de resolver e aplique essa lógica. Agora reflita se você não fica inclinado a pensar em mais pontos positivos ou em mais pontos negativos, de antemão você sabe que está inclinado a fazer algo. O mesmo seria jogar no cara ou coroa, se sair um resultado que não lhe agrada você provavelmente repetirá o teste, ou arriscará. Quer gostemos ou não, a verdade é que os sentimentos pesam no momento de tomarmos uma decisão, a despeito de todo o esforço que fazemos para agir de maneira lógica e de todos os conselhos que recebemos para ser assim.

sarah adulta eu

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Sequestros Neurais

Sequestros Neurais

O cérebro considera impossível ignorar expressões emocionais, principalmente as de irritação. Examine uma multidão, e alguém com a expressão irritada irá se destacar. Esse é o cérebro neandertal em busca de eventuais ameaças. Isso ocorre porque somos programados para prestar atenção reflexiva a “estímulos supernormais”, que seja por segurança, nutrição ou sexo.

No mundo atual, anúncios publicitários que agem sobre essas mesmas inclinações pré-programadas também nos cutucam no sistema ascendente, conquistando atenção reflexiva. Basta vincular sexo ou prestigio a um produto e é possível ativar esses mesmos circuitos para nos influenciar a comprar por motivos que sequer percebemos.

Nossas propensões particulares nos tornam ainda mais vulneráveis alcoólatras ficam fascinados por anúncios de vodca; depravados, por pessoas sensuais num comercial turístico.

Quando somos dominados por fortes emoções, elas guiam nosso foco, fixando nossa atenção no que é mais perturbador e fazendo com que nos esqueçamos do resto.

Sequestros emocionais são disparados pela amígdala – esqueça o seu pescoço, estamos falando do cérebro -, o radar de emaças do cérebro que está constantemente rastreando o entorno em busca de perigo.

Sequestros Neurais

Quando esses circuitos encontram uma ameaça (ou o que poderia ser uma ameaça – pois frequentemente se enganam), uma ampla via de circuitos neuronais subindo para as áreas pré-frontais envia um bombardeio de sinais que faz com que a parte mais baixa do cérebro guie a parte mais alta: nossa atenção se estreita, colada ao que está nos perturbando; nossa memória se reembaralha, tornando mais fácil recordar qualquer coisa que seja relevante à ameaça em questão. E nosso corpo entra em marcha acelerada enquanto uma enxurrada de hormônios do estresse prepara nossos membros para lutar ou correr. Nós nos fixamos no que é perturbador e esquecemos o resto.

Quanto mais forte a emoção, maior a fixação. Os sequestros emocionais são as supercola da atenção. Por quanto tempo? Isso depende do poder da região pré-frontal esquerda para acalmar a amigdala excitada. A resiliência emocional se resume à rapidez com que conseguimos nos recuperar de problemas nesses casos.

O envolvimento ativo da atenção significa uma atividade descendente, um antidoto para o risco de se atravessar o dia com um automatismo de zumbi. Podemos reagir a comerciais, ficar alertas ao que está acontecendo ao nosso redor, questionar rotinas automáticas ou melhora-las. Essa atenção focada e frequentemente orientada a resultados descuidados é o foco ativo.

Embora as emoções possam desviar nossa atenção, com esforço ativo também conseguimos administrar as emoções descentes. Assim, as regiões pré-frontais assumem o controle da amigdala, diminuída sua potencia. Um rosto irritado, ou mesmo aquele bebê fofo, pode não conseguir capturar nossas atenção quando os circuitos do controle descendente assumem as escolhas do cérebro sobre o que levar em consideração e o que ignorar.

sarah adulta eu

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Insights criativos e onde habitam

criativida

Escrito ao som das 4 estações de Vivaldi

Após dois posts analisando a física sobre o viés histórico, vocês devem ter percebido que as histórias dos insights brilhantes acontecem durante uma caminhada, no meio do banho, num passeio ou nas férias. Essas “coincidências” são comumente conhecidas como ócio criativo.
Quando avaliamos o ato de pensar, comumente atribui-se mais valor aquela atenção focada e orientada a resultados do que a percepção aberta e espontânea. Mas, todo tipo de atenção tem sua utilidade.
criativida
Metade dos nossos pensamentos são devaneios espontâneos, para a ciência isso sugere que esta pode ter sido uma vantagem evolutiva, a mente humana é capaz de considerar o imaginário. Porém, em momentos que precisamos executar questões cognitivamente exigentes o processo de dispersão da mente prejudica nosso desempenho. Descobriu-se que isso ocorre devido ao fato de duas áreas cerebrais que estarem ativadas durante a ruminação:

Faixa medial do córtex pré-frontal: sendo que o impulso interno para se afastar do foco intencional é tão forte que cientistas cognitivos entendem a mente divagadora como o modo-padrão do cérebro.
Sistema executivo do córtex pré-frontal: área que era considerada primordial para nos manter contato em tarefas.

Para onde a mente deriva?

Nossa mente normalmente deriva para nossas preocupações pessoais e nossas questões não resolvidas. Ou seja, apesar da divagação da mente prejudicar nosso foco imediato em alguma tarefa especifica, ela é responsável por resolver problemas importantes para nossa vida.

Enfim, a divagação da mente está associada a geração de cenários para o futuro, a autorreflexão, a capacidade de se relacionar em um mundo social complexo, a incubação de ideias criativas, a flexibilidade do foco, a ponderação do que se está aprendendo, a organização das lembranças ou mera meditação sobre a vida – e também a possibilidade de darmos ao nosso circuito de foco mais intensivo uma pausa revigorante.

criativida

Vocês se lembram de quando falamos sobre Arno Penzias e Robert Wilson e a polêmica do Nobel 1978 no post sobre o espaço?

Em resumo, eles pesquisaram durante um ano o universo com equipamentos superpotentes, mas ficaram sobrecarregados por um mar de dados originais e na tentativa de simplificar o trabalho ignoravam “uma estática sem significado”. Então, ocorreu encontro casual com os físicos Bob Dicke e Jim Peebles que estudavam a possibilidade de os vestígios do Big Bang estarem chegando a terra nos dias de hoje. Esse encontro possibilitou o insight – e um polêmico prêmio Nobel em 1978 – pois, Penzias e Wilson a perceberam que o que eles vinham interpretando como “ruído” era na verdade um sinal fraco das continuas reverberações do Big Bang.

O devaneio incuba a mente criativa. A consciência aberta cria uma plataforma mental para descobertas criativas e insights inesperados. Na consciência aberta, não temos advogado do diabo, nem cinismo ou julgamento – apenas receptividade absoluta para o que vier na mente.

Hoje existem estudos que comprovam que adultos com TDAH, comparados com adultos sem o transtorno, mostram níveis maiores de pensamentos criativo original e mais realizações criativas reais.

Os insights criativos e onde habitam

Rappers freestyling, improvisam letras na hora de cantar, nesse momento demonstram uma atividade aumentada no circuito de divagação mental, entre outras partes do cérebro – permitindo novas conexões entre redes neurais distantes. Nesta espaçosa ecologia mental, temos mais propensão a fazermos novas associações, a sensação de EUREKA!

Em momentos criativos menos frenéticos, pouco antes de um insight, o cérebro costuma descansar em um foco aberto e relaxado, caracterizado por um ritmo alfa. Isso sinaliza um estado de devaneio ou sonho acordado. Como o cérebro armazena diferentes tipos de informações em circuitos de amplo alcance, uma consciência vagando livremente aumenta as chances de associações com serendipidade e novas combinações.

Picos gama ocorrem rotineiramente durante operações mentais e logo antes de um insight criativo. Porém o local do pico gama durante o insight criativo é revelador: ele ocorre na área do cérebro associada aos sonhos, a metáforas, à lógica da arte, do mito e da poesia. Elementos que operam na linguagem do inconsciente, uma esfera onde tudo é possível. O método de associação livre de Freud e abre uma porta para esta modalidade de consciência aberta.

Casulo criativo

vocação, trabalho, emprego e de carreira

Vivemos o caos do mundo contemporâneo. A era da informação. O fluxo ininterrupto de e-mails, mensagens de WhatsApp, notificações do facebook, contas a pagar, nos deixa num estado cerebral contrário ao foco aberto no qual as descobertas da serendipidade prosperam.

Num post antigo: trabalho, emprego, carreira e vida. Comentamos sobre a necessidade de encontrar um tempo livre no qual possamos manter a manter uma consciência aberta. Porque em meio ao tumulto das nossas distrações diárias, a procrastinação e as listas infindáveis de tarefas, a inovação trava. Somente, o tempo livre deixa o espirito criativo florescer. Agendas apertadas o matam.

Um estudo da Harvard Business School sobre a forma de trabalho interno de 238 membros de equipes de projetos criativos, que recebiam como tarefas desafios de inovação que iam de solucionar complexos problemas de TI a inventar equipamentos de cozinha. Percebeu que os Insights criativos fluem melhor quando as pessoas têm objetivos claros, mas também liberdade de meios para atingi-los. E o mais importante, tinham períodos de tempo reservados – o bastante para realmente pensarem livremente. Um casulo criativo.

Não confunda uma mente a deriva com ruminação!

vocação, trabalho, emprego e de carreira
Em fevereiro, escrevi um post tratava de mindfulness, ou atenção plena. que pode parecer que conflita com o que estou escrevendo agora. Porém existe uma ténue diferença entre a mente a deriva e a ruminação danosa. A prática constante da meditação ou a terapia psicológica ajuda o desenvolvimento da metaconsciência (capacidade de observarmos os nossos processos mentais, relacionarmos com os nossos sentimentos e escolher o que fazer a respeito).

O fortalecimento das conexões entre as zonas executivas pré-frontais e a amígdala (área do cérebro que domina as emoções), especialmente fortalece as regiões que dominam o autocontrole, os circuitos que podem dizer “não” aos impulsos.

Enfim…

Você é um sortudo. Sua mente tem infinitas ideias, lembranças e associações potenciais esperando para serem feitas. Mas a probabilidade de a ideia certa se ligar com a lembrança correta no momento adequado – e tudo isso ser capturado pelo holofote da atenção – diminui drasticamente quando estamos hiperfocados ou sobrecarregados demais por distrações para percebemos o insight. Então, relaxe e curta o seu tempo livre.

sarah adulta eu

Sugestões bibliográficas:

  • De onde vem as boas ideias (Jorge Zahar)
  • Working memory capacity, attencional focus, and problem solving (Wiley e jafoz)
  • The power os small wins (teresa Amabile e Seven Kramer)
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