Viajar sozinha

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Eu sempre ouvi dizer que viajar sozinho é uma experiência que todos deveriam ter. Para perto ou para longe, por pouco ou muito tempo, me diziam que era uma jornada de auto-conhecimento. Também já tinha ouvido falar que era assustador, impensável e até um pouco deprimente. Quando surgiu no fim do ano passado a oportunidade para que eu passasse um mês inteiro praticamente andando sozinha por um país desconhecido, eu não tive nem dúvida – eu fui – assustador ou empolgante eu sabia que seria uma experiência única.

Ao todo foram 34 dias, 30 dos quais eu efetivamente estava viajando sozinha. Fiquei em 4 cidades diferentes, fora as tantas outras que passeei só por um dia. Duas viagens de avião, 6 de trem e 3 ônibus. Muitas libras foram embora dos meus bolsos, mas posso dizer que me sinto enriquecida. Não outra pessoa – acho que já passei dessa fase de me refazer a cada nova experiência – mas também não a mesma de sempre. Viajar, sozinha ou acompanhada, tem esse poder mágico para mim.

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Glen Coe (Highlands), Escócia. Fevereiro, 2017.

Eu adoro me aventurar por novos lugares e procuro sempre fazer coisas que nunca fiz, mas não sou exatamente uma pessoa espontânea. Quando eu viajo eu gosto de planejar cada hora de cada dia, uma versão otimista e outra pessimista, e na hora eu faço o que a realidade permitir. Dessa vez não foi bem assim. Com tão pouco tempo para me preparar, só consegui dar uma olhada superficial em tudo que tinha pra fazer em cada um dos lugares onde iria parar. Certamente não consegui planejar com precisão o orçamento de cada etapa da viagem. Fora que não eram só os passeios que eu tinha que preparar, mas também o trabalho (afinal toda a viagem girou em torno do que eu poderia acrescentar para o meu projeto de mestrado).

Assim, pessoa ansiosa que sou, o pré-viagem não foi nada tranquilo. Sozinha, eu não tinha com quem compartilhar minhas dúvidas, dividir o peso de cada decisão. Não que os amigos ou a família não me ouvissem quando precisava, mas ninguém iria de fato arcar com as consequências das minhas (in)decisões. Planejei os quatro primeiros dias, respirei fundo e fui. Ao chegar lá, esqueci de todas as preocupações. Corri para conhecer e absorver o máximo que podia de Londres – o que não é pouco – em apenas dois dias. Foi empolgante, corrido, animado e meus pés reclamaram de tanto andar. A liberdade de acordar a cada dia e poder decidir o que eu ia fazer, pra onde ir, quanto tempo passar em cada lugar, o que e que horas eu iria comer, era único. Sei que aproveitei muito bem esse lado de estar sozinha. Pelo outro lado, tive diversos momentos em que eu estava tão encantada com o que estava vendo e vivendo, que eu gostaria que houvesse alguém ali para compartilhar aquilo. Alguém só pra olhar e sorrir e dizer: “Nossa, olha que incrível é isso!”.

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The National Gallery, Londres. Janeiro, 2017.

Segui minha programação nos dias seguintes para um congresso e depois, uma breve visita a um potencial novo colaborador. Essa etapa foi justamente o período em que eu estive acompanhada, então talvez não valha falar aqui. A partir daí, todos que eu conhecia foram embora e eu fiquei trabalhando com novas pessoas. Nessas próximas semanas eu consegui turistar durante os finais de semana, e trabalhar muito durante a semana. E foram nesses dias de trabalho que eu mais senti o peso da minha introversão.

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Seguir minha linha de raciocínio no que se trata de interagir com pessoas novas não é fácil nem pra mim, portanto nem me atrevo a arriscar aqui por escrito. Basta dizer que me sinto muito bem representada por esse quadrinho aí de cima. Estar em um ambiente em que, a cada minuto, eu não sabia o que esperar não foi nada fácil. Eu estava lá para aprender a fazer o que eles fazem de melhor nesse grupo de pesquisa, mas cada dúvida que eu precisava tirar com alguém eram horas de ruminação para decidir quem buscar (e que não ia me dar patada), o momento certo (pra não atrapalhar o trabalho deles), as palavras certas (para não parecer muito burra)… Nesse período fiquei hospedada em um apartamento do airbnb, ou seja, eu praticamente morei com esse casal por três semanas, e lá também até as escolhas de que horas comer e tomar banho eram decisões que me pesavam mais do que deveriam. A solução para mim foi fugir da interação em casa, eu rapidamente aprendi os horários deles e basicamente só usava o resto da casa quando eles não estavam mais lá. Sei que assim perdi alguma coisa dessa experiência, mas foi o que me permitiu manter minha produtividade durante o dia. Ah e, claro, toda a pressão de concluir o máximo de trabalho possível antes de acabar meu tempo. Foram três semanas emocionalmente exaustivas.

Ao sobreviver a base de comida de micro-ondas e um biscoito baratinho (e especialmente delicioso), consegui planejar meus últimos dias de férias. Saí de Edimburgo com a sensação de missão cumprida, apesar da exaustão acima mencionada. Absolutamente tudo tinha dado certo até ali, o trabalho, as hospedagens, os passeios. Assim, fui super empolgada de volta a Londres. Viajar sozinha me permitiu tomar essas decisões de “última hora”, me permitiu voltar a lugares já visitados em detrimento de conhecer outros simplesmente porque eu tinha gostado muito dali. Me permitiu sentir de novo a angústia e a empolgação de ser a única responsável pelas minhas escolhas – onde ficar, onde ir, onde comer. Mas, novamente, não tinha ninguém ali para compartilhar todas as coisas incríveis que eu vivi.

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Palácio de Buckingham, Londres. Janeiro, 2017.

Viajar sozinha, para mim, não foi auto-conhecimento. Foi ultrapassar limites que eu já sabia que tinha, foi me desafiar a coisas novas. Foi me sentir mais forte e confiante por saber que eu consegui passar por tudo isso com um resultado super positivo ao final. Foi a oportunidade de conhecer gente de todos os lugares, conversar sobre carreira, política e vida adulta com brasileiros, americanos e paquistaneses. Por outro lado, viajar sozinha foi, sim, solitário também. Estar sozinha comigo mesma é gostoso, mas cheguei a conclusão que prefiro ficar sozinha em casa. Acredito que tem alegrias que são só nossas, mas outras que são melhores quando são compartilhadas. Viajar é uma dessas.

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Castelo de Craigmillar, Edimburgo. Fevereiro, 2017. (também conhecido como caminho para a faculdade)
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1 Comment

  1. Clari, me lembrou o livro na “Natureza Selvagem” a frase final do livro é: a felicidade só é verdadeira quando compartilhada.
    De qualquer jeito, acho que é uma grande experiência e valida. Como tudo que é fora da zona de conforto.

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