Você se lembra?

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Você se lembra? Era outono quando a gente se conheceu. Aquela época do ano em que conseguimos sair no sol sem achar que vamos nos desafazer no asfalto. Não é uma época particularmente pitoresca por aqui, você já deve ter percebido isso não? Ainda assim, os dias são agradáveis e as frentes frias começam a nos lembrar de que conseguimos sim ter um pequeno inverno. Quando a gente se conheceu fazia um dia lindo lá fora, você se lembra? O sol brilhava gentilmente, mas a brisa do mar não o deixava castigar nossas peles. Não estávamos sozinhos, era realmente um belo dia, tanto pra você quanto pra mim. A noite estava começando a chegar quando eu te vi, e como se uns poucos raios de sol ainda conseguissem escapar do horizonte você se destacou no meio de tanta gente. Você deve ter reparado meu olhar atordoado, porque andou na minha direção e sorriu. Não consigo me lembrar se sorri de volta. De repente, foi como se o tempo andasse ao contrário. Naqueles poucos segundos em que encarei o seu sorriso, o sol brilhou dentro de mim, queimou a minha pele e me fez acreditar que eu nunca veria um inverno novamente.

IMG_0770Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016. 

Você se lembra? Enquanto eu estava ali, nesse estado, você se apresentou e quis saber o meu nome. A gente não deve ter trocado muitas palavras, não acredito que eu fosse capaz de encontrar muitas cada vez que seus olhos encontravam os meus. Não estávamos sozinhos e a vida tem dessas coisas, naquela noite nós sorrimos e andamos em direções opostas.

Como todo ano, aquele inverno não foi diferente. Os dias continuavam claros, mas o nosso corpo precisava de mais proteção. Umas tempestades passaram e, cada um de nós do seu lado da cidade, as observamos e nos afligimos achando que os dias estavam escuros de mais pro nosso gosto.  Mas, você se lembra de como foi rápido? Enquanto ainda buscávamos abrigo da escuridão que nunca chegaria, enquanto as noites pareciam mais compridas do que realmente eram, enquanto levantar da cama era a tarefa mais difícil que poderíamos pensar em executar, a primavera ocupou o ar.

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Tiradentes, Minas Gerais. Agosto, 2014.

Não por acaso a primavera é minha estação preferida. Foi quando a vida cruzou nossos caminhos novamente, e inspirados pelas flores nós conversamos e andamos e discutimos o universo, futuro e presente. Foi na primavera que você segurou a minha mão, você se lembra? Foi ali mesmo, à beira do infinito do mar que eu pedi, a quem quisesse me ouvir, que aquele momento não acabasse. Nunca tivemos uma primavera tão longa. Todas as cores brilhavam mais, as frutas eram mais saborosas e acordar todos os dias não era nada mal. Você se lembra se foram dias, meses ou anos? Eu tento, mas não consigo. Tudo que guardei em mim foram os incontáveis sorrisos, as cores, os gostos.

O verão chegou e, como é comum por aqui, a única diferença foi o calor. A gente tem mania de reclamar disso, ne? Mas aquele deve ter sido o melhor verão das nossas vidas. Tudo se aqueceu, nossos sorrisos, nossos olhares, nossos toques. Não tínhamos nada do que reclamar. Tudo é mais intenso no verão. É aquela estação do ano que nos inspira a acreditar que nada pode dar errado, que as noites não podem durar muito – e que na verdade elas nunca são tão escuras assim.

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Parque da Cidade, Niterói, Rio de Janeiro. Abril, 2016.

Um dia, porém, o outono chegou. E, novamente, com seus ventos fortes, ameaçou um inverno terrível. A principio eu não acreditei que isso fosse possível, não depois de duas estações tão quentes, coloridas e felizes. A vida tem dessas coisas não é? Durante alguns minutos só você falou, enquanto eu apertava meu coração com força para que ele não se desfizesse ali na sua frente. Você se lembra? Com um sorriso eu disse que estava bem, você se lembra? Eu me lembro. Você sorriu, se desculpou e foi embora.

17101512_10210042962724389_2113080367_o Iguaba Grande, Rio de Janeiro. Junho, 2016.

O inverno chegou. Contra todas as expectativas, ficou frio e escuro. As noites eram intermináveis, sair na rua e encarar o mundo parecia impossível. O ar era tão pesado que dificultava a respiração, os agasalhos pesavam como se eu carregasse um enorme cachorro preto nas costas. As lágrimas continuavam escondidas, é claro, atrás de um sorriso. Os pesadelos eram constantes, inspirados pela escuridão do mundo e pela violência que começava a assolar nossas ruas.

Uma dessas noites eu sonhei com você. Eu sonhei que sentia seu corpo ao meu lado e que o sol brilhava quente sobre nós. Eu sonhei que aquilo era a realidade, e todo aquele inverno não passava de uma pequena nuvem que cruzava o céu. Sonhei que, se você havia passado pelas mesmas estações que eu, ainda poderia haver esperança. O único defeito de todos os mundos oníricos é que eles tem um fim. Disso você não vai lembrar, mas aquela noite eu acordei e estava deitada no chão. Percebi que todo aquele calor era meu sangue se esvaindo de mim. Quando tentei gritar, a única palavra de que me lembrava era o seu nome. Naquela tarde de outono, ao som melancólico da sua voz, eu apertei meu coração mais forte do que deveria. Durante o inverno, toda a escuridão vinha de dentro e eu não fui capaz de perceber. Sem um coração operante, nosso sangue se perde não é? Não tinha mais seu destino predeterminado, e talvez estivesse tão ruim aqui dentro que ele precisou sair. Enquanto eu tentava me equilibrar em meio aquela poça de sentimentos vermelhos e grudentos, não conseguia mais lembrar do seu sorriso. Quando as lágrimas vieram novamente, alagou o quarto. Naquele desespero de sobreviver, eu duvidei se em algum momento você sequer existiu. Enquanto tudo de mim se esvaziava, eu acreditei que todas as últimas estações haviam sido alucinações de uma mente solitária. Acreditei que você era somente o produto de um cérebro que lia muitos romances.

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“The Gates of Hell” (Rodin). Stanford, Estados Unidos. Janeiro, 2015.

Sem perceber, caí no sono novamente. Quando acordei, finalmente era dia. O quarto estava limpo, assim como meu corpo, que apenas se sentia ressaqueado. Por uns dias eu tentei entender aquela noite. Por uns dias eu tentei sentir alguma coisa, mas não consegui. Aquele inverno parecia cada vez mais interminável, tinha me deixado dormente e fotofóbica. Preferi me resignar à ideia de que você não era real, era um personagem da minha criatividade, e isso doeu. Doeu por mais uns dias enquanto acreditei que nunca mais eu veria o sol.

Ainda era inverno quando meu telefone tocou e eu ouvi a sua voz.

Novamente caí em um desespero sanguinolento, simplesmente por descobrir que era tudo real. Toda felicidade foi real, mas não tanto quanto a dor. Senti a força que a minha própria escuridão conseguia exercer sobre mim. Foi quando percebi que enquanto eu chorava e estremecia, o sol lá fora já estava voltando a cantar. Saí de casa e decidi que precisava sair de mim. Senti uma vontade incontrolável de me jogar em direção a um abismo desconhecido qualquer. Todos aqueles pelos quais eu caí antes pareciam doloridos olhando do chão em que aterrissei, escuros demais, duros demais. Ainda assim, todos eles haviam parecido como um poço dos desejos quando olhados lá de cima. E por alguns momentos da queda a adrenalina fazia tudo parecer mais quente, intenso, levemente insano, mas bom.

17122118_10210042961964370_487306367_oGovernador Celso Ramos, Santa Catarina. Dezembro, 2016. 

Entendi que faria tudo de novo. Entendi que naquele último outono, quando olhamos para o abismo eu me desequilibrei na beirada enquanto você teve medo e preferiu ficar no seu próprio deserto. Me debrucei sobre as duvidas, as inseguranças e toda a escuridão que me assolou durante o inverno. Será que você havia passado pelo mesmo que eu? Não pude aquietar essa duvida e durante a primavera escalei pedra a pedra o abismo de volta até te encontrar. Aquele sorriso que tanto havia me aquecido um dia ainda estava lá, apesar de todos meus questionamento quanto a sua existência.

Eu te perguntei: “Você se lembra?”

Você pegou a minha mão e, sem precisar de uma palavra, nós pulamos. O salto mais sincronizado que o abismo já presenciou em todos os seus milênios de existência. E com os sorrisos coordenados não conseguíamos olhar para baixo, ainda assim nós dois soubemos ali que aquele abismo não tinha chão. Dali, a gente só podia cair para o infinito do universo.

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1 Comment

  1. Gosto de ler seu lado poético. E acho tão difícil colocar essas coisas online. Talvez eu sinta como uma tortura de admitir a própria vulnerabilidade. Sei que isso também não é fácil para você!
    Triste é se colocar dentro destas estações. Talvez pq eu ainda esteja vivendo o inverno. Então que chegue o verão!
    Parabéns!

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